Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

João Távora

Breve iniciação à fascinante história da gravação sonora

Imagem 1.jpg

O primeiro aparelho de gravação e reprodução sonora mecânico foi o fonógrafo de cilindro, inventado por Thomas Edison em 1877 – lembro-me bem na minha juventude, dos selos nos discos a assinalar o centenário. A sua comercialização generalizou-se no final do séc. XIX quando se tornaram funcionais. Além de muito competentes na reprodução, eram vendidos com um kit para gravação, coisa que tornava o objecto muito mais completo e interessante do que os gramofones (reprodutores dos primeiros discos), ainda algo toscos. Concebidos numa cera castanha bastante frágil em que o registo se degradava em pouco mais de dez audições, originalmente os cilindros tinham de ser gravados, cada um deles, ao vivo. Posteriormente desenvolveu-se uma solução interligando os fonógrafos com tubos de borracha, um sistema não satisfatório mas suficientemente eficaz para a comercialização e venda de cilindros gravados em série. Tal obrigava os artistas, músicos e cantores a desgastantes sessões em que repetiam incessantemente o tema até produzirem um lote suficiente para satisfazer a procura. Dava-se o caso curioso de uma mesma edição inevitavelmente exibir ligeiras diferenças nas interpretações. Deste modo não se seduziam os artistas de proa a submeterem-se à experiência.

Ao longo dos anos, o tipo de cera utilizada nos cilindros foi melhorado e endurecido de modo que pudessem ser tocados mais vezes sem se degradarem tanto. Em 1902, a Edison Records lançou uma nova gama de cilindros de cera prensada, os Edison Gold Moulded. Muito aperfeiçoado, o progresso consistia na criação de um cilindro principal revestido com ouro que permitia a impressão de várias centenas de cópias.

O Disco, da empresa Gramophone de Emile Berliner então emergente, ainda demoraria uns anos para se impor definitivamente. Este suporte de gravação sonora, ainda hoje em aperfeiçoamento e preferido pelos mais criteriosos audiófilos, nasceu a 18 de Maio de 1888 para concorrer com o cilindro de cera. Apesar de possuírem mais capacidade de armazenamento (dois lados) e serem mais fáceis de guardar, os discos não se impuseram logo no mercado devido à sua extrema fragilidade. Só a partir de 1910, com a aplicação de goma-laca que facilitava a sua prensagem a partir de uma matriz, as suas vendas ultrapassaram os célebres cilindros de Thomas Edison. Foi já tarde e diante da iminente falência que Thomas Edison converteu a sua produção para o disco, no formato de 10 polegadas, que perdurou até ao início dos anos 1950, quando surgiram os Long Playing de 33 rpm (rotações por minuto) e os Singles de 45 rpm, gravados em vinil e impulsionados por motores de grande precisão, que permitiam a redução do número de rotações e por isso a capacidade de “armazenamento”.

Inicialmente apenas com um dos lados gravados, os primeiros discos, pesados e rígidos, feitos para rodar entre 75 e 78 rpm, tocavam, como os cilindros, gravações de 3 a 4 minutos realizadas por métodos integralmente mecânicos e acústicos, de sensibilidade a frequências extremamente limitada: as muito baixas (sons graves) e as muito altas (sons agudos) não eram registadas. Os metais e a percussão eram, por isso, os instrumentos musicais mais adequados a acompanhar cançonetas, marchas e polcas ou até curtas árias de Ópera devidamente adaptadas. Estas limitações só foram ultrapassadas pela gravação eléctrica com microfones e amplificadores, o que se generalizou a partir do final da década de 1920.

No início era só nas casas burguesas mais abastadas ou em bailaricos de paróquia que os discos eram tocados em gramofones mais ou menos sofisticados, cuja potência sonora dependia do formato e tamanho da campânula que projectava o som. Estes aparelhos, como os fonógrafos, funcionavam com fabulosos motores de corda, cuja precisão e força chegava a garantir a audição afinada de três discos sem novo impulso de manivela. Outra curiosidade era o consumo frequente de pontiagudas agulhas de metal (as marcas fonográficas aconselhavam a sua troca a cada audição!) e que eram vendidas às centenas em coloridas caixinhas de folha-de-flandres que hoje fazem as delícias dos coleccionadores. Foi a partir dos anos 1920 que se popularizaram as grafonolas, máquinas portáteis em forma de mala, contendo uma pequena campânula escondida no interior. Estas eram bem menos elegantes e potentes que os gramofones, mas muito mais económicas, o que potenciou a sua popularização e a consequente expansão da indústria fonográfica.

É nos anos 1940 que surge na revista norte-americana Bilboard a primeira lista dos discos mais vendidos. O mundo jamais foi o mesmo. A democratização do consumo da música gravada teve definitivamente origem no disco de Berliner, que trouxe consigo, entre tantas virtualidades, um dos mais marcantes fenómenos do século XX: a música Pop. Quem nasceu nos anos 1960, em pleno boom da indústria fonográfica — quando a importância dos seus actores, principalmente os artistas, foi reconhecida política e socialmente, alguns quase idolatrados, dificilmente entende que no início os artistas fossem quase anónimos, a quem as capas em papel pardo que envolviam os discos não davam qualquer protagonismo.

A estereofonia foi de facto um passo decisivo na história da indústria fonográfica e do áudio no caminho para a “Alta-fidelidade” - o nome que se dava à reprodução sonora tão próxima da realidade quanto possível. Entre os anos sessenta e os anos oitenta era relativamente comum encontrar numa casa de classe média/alta em lugar de destaque um bom sistema de som. Pelo contrário, actualmente esse culto de perfeição atingiu o ponto mais baixo das últimas décadas: é pouco menos que lamentável a qualidade dos registos sonoros em ficheiros de compressão de áudio usados nos computadores, telemóveis e outras engenhocas tão populares entre as novas gerações. Refiro-me à desmaterialização do consumo da música, e ao fenómeno das “estantes vazias”. O advento do streaming foi um salto, não tanto em qualidade sonora mas em comodidade.

Privilegiado possuidor de um fonógrafo de Edisson e de um Gramofone, ambos aparelhos do início do século XX (vale a pena uma visita ao Museu da Música Mecânica, situado no Pinhal Novo, no município de Palmela, dedicado ao fabuloso acervo de fonógrafos, gramofones e Caixas de Música de Luís Cangueiro) o fascínio pela música e pelo som conduziram-me à colecção dos primeiros registos sonoros feitos em Portugal, com especial foco nas duas primeiras décadas do século XX. Quem sabe nos nossos dias quem eram esses cantores/actores pioneiros, com dezenas de peças comercializadas, como Isabel Costa, Duarte Silva, Medina de Sousa, Manassés Lacerda, ou Reinaldo Varella (que terá sido professor de música do Rei D. Carlos)? Talvez por isso me pareça tão estranho o desinteresse generalizado pela história da música gravada no nosso país, em claro contraste com o interesse pela actividade fotográfica da mesma época e os seus actores. Afinal estamos a falar dos dois principais sentidos, a visão e a audição, ou não?

De facto, há em Portugal várias décadas de história da música gravada, dos seus produtores e intérpretes anteriores ao cinema sonoro (à gravação eléctrica) que valem bem o seu estudo e divulgação.

2 - Sociedade_Fonographica.jpg

 A embalagem dum cilindro (colecção particular)

Imagem3.jpg

Anúncio de Gramofone da Sociedade Phonográphica Portugueza (colecção particular)

Imagem 4 (1).jpg

Anúncio Discos Simplex (colecção particular)

2016-03-03 19.17.49.jpg

2016-03-23 20.23.21.jpg

2016-03-04 19.41.59.jpg

Rótulos de discos portugueses da primeira década do século XX (colecção particular)

Leitura aconselhada:

Legenda imagem de topo:

 A Banda da Guarda Municipal de Lisboa (mais tarde republicana) dirigida pelo Chefe António Taborda, gravou no Quartel do Carmo para a companhia “The Gramophone and Typewriter” o primeiro disco de pompa militar intitulado “Surpresa do Inimigo” de Martins júnior, a 24 de Julho de 1904. (colecção particular)



Findit quas cunque

Fonte 3.JPGQuando confrontado com a necessidade de explicar aos meus filhos o sentido da divisa inscrita no brasão dos Távora, Findit quas cunque, fiquei surpreendido com a dificuldade de lhe atribuir um significado claro. A minha consulta aos amigos com conhecimentos heráldicos (não propriamente latinistas) conduziu-me a duas interpretações: a primeira foi um dramático “Tudo tem um fim”, a outra, com significado mais heroico (e irónico, tendo em consideração o trágico processo dos Távora) foi “Abre seja o que for”, como quem diz “Para nós não existem obstáculos”.

Centro-me na primeira significação, “Tudo tem um fim” que exprime um materialismo brutal, até cruel, nada condicente com a religiosidade da família Távora (comum nas elites da época). Uma percepção vulgar nos nossos dias, confirmada quotidianamente pela transitoriedade da vida e das glórias ou dos bens terrenos. Não sei se a tradução do latim nos permite uma interpretação alternativa que prefiro, aquela em que “fim” é tido como “finalidade”, “propósito”, no sentido de que as nossas acções e obras servem um projecto superior, seja numa Comunidade, na História, ou no Projecto de Deus. O contrário do ponto de vista niilista, da ausência de sentido e desígnio da Vida Humana. Se tudo tem uma finalidade, também o tem a pertença a um nome de família, a uma comunidade identitária derramada no tempo a persistir de geração em geração, protegendo os seus e servindo a Pátria. Era a explicação ideal que eu gostaria de entregar à minha descendência.

Ao que parece, o significado mais plausível é o de “Seja o que for, abrimos”, como defende José Norton aqui, “findit” com o sentido de fender, ou seja, abrir. Já o termo “quascunque” significará “o que quer que seja”, “seja o que for”. De facto, esta tradução da divisa em latim ajusta-se a uma família de guerreiros com origens medievais, cujo poder se afirmava pelo serviço ao Rei com a força das armas. De resto, a família Távora foi por mais de 400 anos um caso raro de ascendência social constante, pelo desempenho de cargos militares e administrativos no Reino, assim como alianças matrimoniais. Assim os Távora chegaram ao século XVIII como uma das mais poderosas Casas de Portugal (e pagaram-no caro). Como refere o historiador Nuno Gonçalo Freitas Monteiro em “O crepúsculo dos grandes (1750 – 1832)”, “O caso dos Távoras, (…) era relativamente excepcional. Deve-se ter em conta que, pelo menos no início do séc. XVIII, se atribuía a essa linhagem e aos que dela descendiam uma identidade peculiar (consubstanciada numa singular altivez e espírito guerreiro), que não tinha paralelo com nenhuma outra família. Não era comum uma tão forte consciência da identidade e da pertença a uma linhagem.” Nesse sentido justifica-se Findit quas cunque, com um sentido próximo de “Ou vai ou racha”…

Com origem toponímica, nomeadamente de uma vila ribeirinha do Rio Távora, com o mesmo nome, situada no Alto Douro, este é um apelido muito antigo que surgiu com Lourenço Pires de Távora em 1320, filho do 6º senhor de Távora de Pedro Ramirez. Seja como for, o apelido Távora, utilizado pela minha família, é nome da varonia da Casa de Abrantes há dez gerações, por via de D. Manuel Rafael de Távora (1715-89) que pagou com 16 anos de prisão o facto de ser irmão mais novo do malogrado Marquês de Távora. Curiosamente o apelido foi resgatado pelo meu trisavô como um acto de rebeldia assumido, contra as modas republicanas e anticlericais veneradoras de Sebastião José que então se afirmavam, quando no último terço do século XIX, talvez por inércia, o “banimento” pombalino do apelido prescreveu.

Talvez fosse tempo de se ensaiar uma crónica desta família, um estudo aprofundado que se focasse nas histórias e lugares dos seus principais protagonistas e linhagens. Portugal construiu-se alicerçado em famílias. Como refere Rui Ramos “As “casas” foram fundamentais na transmissão de memórias, cultos e valores que começaram por ser de linhagens, para depois se tornarem os de uma nação, como Jorge de Sena demonstrou em relação aos Lusíadas, que começou por ser uma epopeia de “linhagens” para hoje serem lidos como a epopeia de um “povo”.”

Não deverá ser em vão, mesmo nos nossos dias, exibir-se este apelido. Há que honrá-lo.

Na imagem: Pormenor do fontanário central do Jardim da Quinta da Piedade no coração da Póvoa de Santa Iria com o brasão Lancastre e Távora, em homenagem ao enlace de D. Isabel Lancastre e Manuel Rafael de Távora.

Não sabemos o que será da França

FrechTerror-854x480.jpg

Ontem, os britânicos, mergulhados numa crise económica e social profunda, despacharam o partido conservador depois de 14 anos de governo e trágicas asneiras dando uma maioria assinalável aos trabalhistas para governar os seus destinos. Claro que eles, para obterem esta conquista esmagadora de círculos eleitorais, trataram primeiro de correr com os radicais e elegeram uma liderança moderada, beneficiando de uma quebra de mais de 20% dos votos dos conservadores e do sistema eleitoral. 

Já em França o futuro é algo difícil de prever, que os franceses há muito cuidaram de cortar a cabeça ao rei. Mas há um padrão que se adivinha inevitável: depois das eleições no domingo, nas principais cidades do país, haverá muitas montras destruídas, automóveis queimados e pedras a voar. Tudo aponta para a vitória do Reagrupamento Nacional de Marine Le Pen e da jovem promessa Jordan Badella, porventura sem maioria absoluta, para enfrentar uma “barragem republicana” liderada pelo partido de Macron que não teve pudor de nela incluir a esquerda radical com propostas tão ou mais radicais quanto a extrema-direita. Tudo isto seria grave se não fosse trágico, se considerarmos a panela de pressão que é a França nos nossos dias, com as finanças descontroladas e reivindicações dos extremos impossíveis de satisfazer.

Talvez os irredutíveis franceses estejam habituados a este ambiente caótico e um milagre à beira do precipício adie o descalabro, que rapidamente se estenderia à União Europeia. Incapazes de encontrar pontes e consensos, os franceses há muito tempo dessacralizaram o poder e os seus símbolos, e vão malbaratando “repúblicas” à procura duma receita que apazigue o seu frémito fracturante, quem sabe herdado da Revolução. Foram demasiadas cabeças cortadas. Como dizia um “macronista” parisiense citado no Observador, “Ao início, um Presidente é sempre muito popular. Depois perde essa popularidade. Foi assim com Sarkozy, com Hollande, agora com Macron. Temos sempre este impulso de querer cortar a cabeça ao Rei.” A questão dos franceses há muito que não é política ou ideológica. Trata-se duma insatisfação existencial, espiritual.

Espero que Portugal, que deve muito da sua cultura política a esta França revoltada e histriónica, ganhe logo à noite a eliminatória aos Galos. É que o futebol tapa muita coisa, e nós por cá também temos as nossas questões irresolúveis.