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João Távora

Inquietação

O facto de perceber que o caminho traçado pelo mundo não aponta para um futuro melhor, e de saber que as minhas opiniões não conseguem inverter essa dinâmica, não me exime da responsabilidade de defender aquilo em que acredito. O valor das ideias não se mede pela quantidade de pessoas que as seguem, mas pela profundidade e honestidade com que são sustentadas. Valha-nos essa liberdade.

Ao longo da história, quem demonstrou uma consciência mais aguçada sentiu, de forma inevitável, a inquietação de não se encaixar no pensamento dominante. A lucidez manifesta-se como uma chama inquieta, que arde silenciosa em quem se recusa a render-se ao consenso fácil. Existe uma dignidade particular em erguer convicções solitárias diante do ruído da maioria: trata-se do preço a pagar por se permanecer acordado enquanto tudo em redor se acomoda ao conforto das ideias feitas e das tendências passageiras. Quantos se insurgiram perante a iniquidade da crucificação de Jesus?

A celebrada ideia de progresso e a satisfação existencial representam, na sua essência, um sinal de visão limitada. O apelo da vulgaridade atrai multidões, e o apaziguamento proporcionado pela resignação revela-se como um convite fatal à decadência colectiva.

Que não haja dúvidas: são sobretudo as "causas perdidas" que exigem inconformismo e empenho genuíno. E é neste esforço, por mais inútil que pareça, que poderemos fazer alguma diferença no balanço final da existência.

A culpa, a nossa tão grande culpa

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Tempos houve que, perante uma tragédia, perante um cataclismo, um funesto mau ano agrícola, ou infausta epidemia, a comunidade enchia as igrejas, recorria aos santos que nos andores saíam em procissão, suplicando-lhes o povo a intercessão ao Criador por uma redentora intervenção - eram uns totós. Chegados à laica modernidade, esvaziadas as igrejas e secularizado o espaço público, o fenómeno permanece com outras roupagens – só pode ser o sentido de humor de Deus: o sentimentalismo e a indignação são as novas formas de prece, sonoras suplicas laicas, vociferadas nos ecrãs das TVs e dos telemóveis quais oratórios ou altares domésticos. Os nossos “pensamentos” estão com as vítimas, dizem. Deve adiantar muito, deve…

Enfim, como já não se implora por milagres a Deus, exigem-se milagres aos impotentes políticos, que na verdade se puseram a jeito. O resultado disso, perante uma qualquer desgraça, mesmo sazonal, é uma ruidosa cacofonia desregrada, que não vale uma missa.  O fragor irá entreter o burguês no seu sofá por uns tempos até que o assunto desapareça da agenda, escapulido como o vento escapa entre os dedos das mãos. De resto, a pandemia, os incêndios, as alterações climáticas, como é bom de ver e corrente acreditar-se, é responsabilidade nossa, do capitalismo ou da religião, e por consequência dos governantes ou do heteropatriarcado. Mas se por um lado já se armam as piras para queimar as bruxas, seja nas comissões de inquérito ou nos debates de televisão – o ritual da expiação da culpa, nossa tão grande culpa (e dos incendiários), assim o exige; no horizonte adivinham-se as vozes dos novos profetas que prometem soluções para vergar a natureza, soluções que afinal sempre estiveram nas nossas mãos - o aquecimento global que se cuide.  Na forma de legislação, como é que ninguém tinha visto ainda? O melhor caminho para se retomar “a vida como habitualmente” como já nos prometia o saudoso (?) António.

A propósito de saudade, sonhos, sentimentos e assim: para todo esta interminável e incómoda tragédia que é a nossa passagem pela vida terrena, já o John Lennon preconizava uma solução eficaz: imaginem uma existência sem céu, sem inferno, sem países, sem religião, enfim, toda a gente a viver em paz. Um mundo sem pessoas como solução. É o que nos irão propor um dia destes, os sentimentalistas e os populistas que conhecem as soluções fáceis e simples, que ninguém ainda tinha pensado.

Imagem daqui

A propósito de séries policiais britânicas

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Gosto muito de séries policiais britânicas. Dentro do género encontram-se verdadeiras pérolas, sofisticadas histórias hoje contadas com técnicas aprimoradas de realização e suspense com actores muito bons, que nos lembram pessoas normais e não os modelos “artificiais” que quase sempre nos oferecem as congéneres americanas. Claro que estas séries, mesmo quando baseadas na literatura clássica do crime, reflectem o ar do tempo; de uma certa forma espelham a realidade sociocultural da contemporaneidade. Essas liberdades criativas, quanto a mim ameaçam a qualidade do produto, tornando-o mais com uma bandeira de um activismo qualquer, uma manifestação das virtudes e moralidade contemporâneas. Dir-me-ão que isso em cada época sempre assim foi, e é inevitável. Eu tenderia a concordar, se não fosse aquilo que me parece um exagero crescente, de fazer reflectir em quase toda a produção, até num mistério de Agatha Christie, toda a tralha de preconceitos e lugares-comuns às novas gerações, dispostos em democraticas quotas. 

Mas o que me vem saltando aos olhos, há já algum tempo, é o retrato sociocultural da normalidade vigente nas grandes cidades britânicas – uma premonição daquilo que também chegará a este jardim à beira-mar plantado. Acontece que a velha caricatura do indígena, no caso do “bife”, aquela personagem pálida, de bochechas rosadas e gravata de fantasia histriónica, submerge perante a multiculturalidade, do mosaico de etnias que compõe por estes dias a paisagem urbana do reino de Sua Majestade. No seu lugar, entre figurantes e personagens principais ou secundários, encontram-se latino-americanos, africanos, muçulmanos, uma profusão de etnias, que curiosamente assumem um sotaque de inglês não convencional, um calão propositadamente carregado, seja de Manchester, seja de Newcastle ou duma região qualquer da Escócia. Assim como o modelo da família natural, o chamado "inglês BBC" caiu em desuso, suspeito que seja hoje malvisto, favorecem-se os regionalismos, o calão e os palavrões insistentemente repetidos capazes de fazer corar um tripeiro… Reflexo destes nossos tempos, as séries espelham a preponderância de lares monoparentais, pessoas sós e sem família, a normalização das plataformas de encontros, enfim, a representação porventura “martelada” dos temas fracturantes em voga, das chamadas minorias e múltiplas identidades sexuais, já para não falar das relações homossexuais cada vez mais explicitas, cenas a que não consigo assistir sem bastante incómodo.

Insisto: os britânicos são mestres a realizar séries policiais, mesmo quando nos revelam a sua estranha e decadente realidade. Uma das últimas que segui com agrado foi Vera, passada na enregelada região de Newcastle, protagonizado por uma solteirona de meia-idade, DCI Vera Stanhope. Dir-me-ão que a realidade sociocultural dos britânicos é bem mais prosaica do que os clichés da moda apresentados com os naturais exageros. Acredito, mas parece-me que os sinais de ruína dos valores tradicionais exibidos são claras marcas de uma sociedade profundamente fragmentada. Uma nação deslaçada pelo individualismo.

Porventura não escapará aos mais atentos, o símbolo que permanece e sob o qual trabalham os personagens destes dramas policiais: o monograma real de Sua Majestade o Rei Carlos III, encimado pela coroa real. Será que ela ainda inspira alguma coisa os britânicos?

Afinal quem são os bárbaros?

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Assim como foi um erro crasso a forma como o governo da geringonça lidou com a questão da imigração e o tabu que se alimentou à volta da invasão de estrangeiros, parece-me um erro de igual calibre alimentar ou pactuar com a retórica profundamente racista que circula nas redes sociais como aquela com que ilustro este post, com variáveis estéticas a roçar o obsceno. Além de politicamente perigoso, este discurso incendiário é moralmente condenável, principalmente se originário de quem se arrogue defensor da civilização cristã. Este discurso não é civilizado, é bárbaro. A salvaguarda dos valores humanistas requere que estes sejam mesmo postos em prática, também no discurso. A evidente a necessidade de controlar a imigração (e promover a natalidade de cristãos – chamemos-lhes assim) nada ganha com este discurso odioso.

Como já referi aqui há atrasado, dado o actual estado de coisas estou naturalmente muito pessimista. Em face à complexidade das questões em equação, tenho pouca fé na alteração da realidade pela via legislativa. Mas acho bem que se reponham leis de imigração decentes, que salvaguardem a capacidade de integração dos forasteiros, segundo as nossas regras e costumes. Se a legislação tiver força para “sinalizar” critérios exigentes de entrada, que se “sinalize”.

Tudo isto porque o mais importante é preservarem-se os valores cristãos que construíram este lugar de humanismo, liberdade e abundância. Cuidado não se atire pela janela o bebé com a água do banho. Para já os sinais da rua mostram claramente como “os nativos” são afinal tão susceptíveis a virarem bárbaros - a esquecerem-se dos ensinamentos de Jesus Cristo.

Fujam que vem aí a Marabunta e mais sete pragas

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Sabemos bem como a Comunicação Social dita tradicional vem travando uma luta de morte, na procura de um modelo de negócio que a salve a prazo da completa irrelevância. Um sinal disso é a presença dos canais de televisão nas redes sociais com “bonecos” transmitindo mensagens ribombantes, remetendo para uma ligação na caixa de comentários. Até utilizador regular das redes já percebeu que para desviar trafico duma determinada rede, deverá esconder o link e desse modo desviar os utilizadores para a plataforma pretendida (um blog, por exemplo).  

O caso que reproduzo trata-se de uma publicação do sítio da SIC que encontrei no Facebook. O texto é um caso deplorável de sensacionalismo, até mesmo de uma descarada mentira que faria corar o André Ventura. Trata-se de um dos muitos casos em que a Comunicação Social dita “séria”, como um qualquer utilizador anónimo, despudoradamente chama a atenção através de vulgar alarmismo e despudorada falsidade. Talvez a ligação na caixa de comentários conduza o leitor a uma explanação daquela tese com alguns pozinhos de seriedade, não sabemos, eu não quis morder o isco.

Quando o jornalismo usa as ferramentas do populismo, “a simplificação infantil de problemas altamente complexos” – como vemos acontecer vulgarmente com os incêndios ou a guerra de Israel ao Hamas, ficam todos iguais. Aos grunhos, que gostaríamos de evitar.

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PS.: Posteriormente chegou-me ao telemóvel um tiktok da Alexandra Leitão a lamentar o calor e a prometer refrescar Lisboa até 2030 com a plantação de árvores. E depois não me venham dizer que isto não está tudo ligado.