A miragem do bem-estar
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Muito se tem escrito e falado sobre a polarização política que ameaça a paz social nas democracias ocidentais, nomeadamente na Europa em geral e particularmente em Portugal. A causa desta rebelião, repetidamente afirmada pelos comentadores e que eu me permito refutar nestas linhas, é a falta de expectativas pelo povo da melhoria das condições de vida que foi proporcionada às gerações anteriores (à minha e inclusive). Não sendo o meu caso particular um bom exemplo, não me escuso de o mencionar: a ascendência de que provenho, há vários séculos que vem perdendo influência social e poder económico. Esse facto não faz da minha família e parentescos gente particularmente dada à revolta e à irreverência, antes pelo contrário.
Não tenho dúvidas de que o custo da vida, no sentido de dificuldades de realização material, ainda é muito penalizador para demasiados portugueses, certamente por muitas razões que não vêm ao caso aqui elencar. O elevador social em Portugal é demasiadamente imperfeito e isso tem custos sociais relevantes: o grau de esforço necessário a um individuo para sair do circuito de pobreza ainda é muito grande a comparar com outras nações europeias. O problema é que os comentadores referem este fenómeno de falta de expectativas materiais também noutros países bem mais “evoluídos” social e economicamente que o nosso. Veja-se o grau de polarização no Reino Unido e em França só para dar dois exemplos mais mediáticos.
Ora, o que eu tenho para mim é que, atingido um determinado nível de bem-estar material, a certo ponto permite relevar-se no individuo outra classe de insatisfação. A “satisfação”, como cantam os Rolling Stones, é algo sempre inatingível para a natureza humana. Portanto, colocar a resolução dessa inquietação existencial em objectivos materiais seria sempre um erro. Como foi uma ingenuidade dos políticos acreditarem que seria possível uma economia eternamente em crescimento.
Acontece que algo me diz que a “felicidade” é uma meta muito mais longínqua sem uma educação espiritual. Sem a crença em algo maior que nós, sem um crescimento interior, com vista a aspirações mais ambiciosas, a causas maiores. Talvez a secularização da Europa explique em grande medida os fenómenos de radicalização e rebelião que nos ameaçam. São uma ameaça justamente no ponto do globo com mais bem-estar económico, regalias sociais, e pasme-se, liberdade individual. Quem diria que tudo isso junto se poderia tornar numa armadilha, o nosso pesadelo - a ausência de Deus.
Gravura: execução de Robespierre