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João Távora

A miragem do bem-estar

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Muito se tem escrito e falado sobre a polarização política que ameaça a paz social nas democracias ocidentais, nomeadamente na Europa em geral e particularmente em Portugal.  A causa desta rebelião, repetidamente afirmada pelos comentadores e que eu me permito refutar nestas linhas, é a falta de expectativas pelo povo da melhoria das condições de vida que foi proporcionada às gerações anteriores (à minha e inclusive). Não sendo o meu caso particular um bom exemplo, não me escuso de o mencionar: a ascendência de que provenho, há vários séculos que vem perdendo influência social e poder económico. Esse facto não faz da minha família e parentescos gente particularmente dada à revolta e à irreverência, antes pelo contrário.

Não tenho dúvidas de que o custo da vida, no sentido de dificuldades de realização material, ainda é muito penalizador para demasiados portugueses, certamente por muitas razões que não vêm ao caso aqui elencar. O elevador social em Portugal é demasiadamente imperfeito e isso tem custos sociais relevantes: o grau de esforço necessário a um individuo para sair do circuito de pobreza ainda é muito grande a comparar com outras nações europeias. O problema é que os comentadores referem este fenómeno de falta de expectativas materiais também noutros países bem mais “evoluídos” social e economicamente que o nosso. Veja-se o grau de polarização no Reino Unido e em França só para dar dois exemplos mais mediáticos.

Ora, o que eu tenho para mim é que, atingido um determinado nível de bem-estar material, a certo ponto permite relevar-se no individuo outra classe de insatisfação. A “satisfação”, como cantam os Rolling Stones, é algo sempre inatingível para a natureza humana. Portanto, colocar a resolução dessa inquietação existencial em objectivos materiais seria sempre um erro. Como foi uma ingenuidade dos políticos acreditarem que seria possível uma economia eternamente em crescimento.

Acontece que algo me diz que a “felicidade” é uma meta muito mais longínqua sem uma educação espiritual. Sem a crença em algo maior que nós, sem um crescimento interior, com vista a aspirações mais ambiciosas, a causas maiores. Talvez a secularização da Europa explique em grande medida os fenómenos de radicalização e rebelião que nos ameaçam. São uma ameaça justamente no ponto do globo com mais bem-estar económico, regalias sociais, e pasme-se, liberdade individual. Quem diria que tudo isso junto se poderia tornar numa armadilha, o nosso pesadelo - a ausência de Deus.  

Gravura: execução de Robespierre

A política TikTok

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Como é que é possível, sessenta deputados da Nação, influenciados por um vídeo TikTok produzido pelo seu líder (e depois apagado), oporem-se a uma viagem presidencial à Alemanha à Festa dos Cidadãos, “Bürgerfest”, por pensarem que se tratava de um festival de hambúrgueres? Segundo a nota do Palácio de Belém a "Bürgerfest", em português Festa dos Cidadãos “realiza-se anualmente nos jardins da residência oficial do Presidente Federal, para honrar o trabalho voluntário e promover o envolvimento cívico dos cidadãos”. Não havia nenhum deputado capaz de evitar o disparate, talvez com a ajuda da Inteligência Artificial, que pode ser útil quando falha a natural?

É este o sentido crítico e conhecimento técnico destes nossos representantes que todos os dias com estardalhaço reclamam competência e ética no exercício dos poderes públicos? Não consigo evitar uma enorme vergonha alheia. É o preço do poder popular, dos critérios de escolha dos eleitores, bem sei. Quantos destes incapazes se preparam para conquistar lugares de responsabilidade nos órgãos autárquicos do país?

É a natureza humana à rédea solta, que em instituições fracas adquire demasiado protagonismo. O mundo está perigoso, é o que eu vos digo.

Lembrando velhas amizades

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Talvez porque me puseram um álbum do Tintim nas mãos antes sequer de eu saber o meu nome me tenha chocado a versão deficientemente animada, a estranheza daquelas falas mal dobradas e simplificação das histórias na TV. Afinal não foi a minha imaginação que lhe deu voz e movimentos? Até fui eu que inventei as tramas, enquanto folheava atento os livros ainda sem saber ler... Com o Tintim na TV fiquei definitivamente enciumado com a exposição pública e a banalização do meu herói.

Quase desde o berço que passeei por dentro daqueles quadradinhos, daquelas histórias e mistérios. É por isso que nunca consegui entregar de bom grado o Tintim ao mundo, como se cada aventura guardasse um segredo só meu, um pacto silencioso entre leitor e personagem. O eco das páginas lentamente viradas nas tardes soalheiras das férias intermináveis, o cheiro do papel, os risos partilhados com Milou e os sermões científicos do Professor Girassol, tudo isso moldou um universo privado onde os heróis eram eternos e os perigos, embora assustadores, terminavam sempre com um sorriso de esperança. E aquilo que hoje escapa a muita gente, a bondade de Tintim, a generosidade desse herói profundamente cristão.

Lembro-me das horas estáticas, que passei de pernas cruzadas, em puro deleite diante da última prancha do álbum Carvão no Porão, aquele insólito e colorido rally nos jardins de Moulinsart. As horas passadas em êxtase, fisgado num só quadradinho, invejando o pequeno carro vermelho do rebelde Abdallah em No Pais do Ouro Negro. Hergé deu-me os meus melhores amigos de toda a infância, de quem aliás fui íntimo. Com o Tintim e Milou fui crescendo e lutei contra os sovietes e contra a máfia. Ajudei a libertar os escravos e lutei contra o tráfico de droga. Fui também à lua, onde ia perdendo os meus amigos todos e não salvei o Engº Wolf de uma heróica morte. Planei arrastado por um condor pelas encostas dos Andes. Tremi de medo e gelei de frio a caminho do Tibete, num hino à generosidade. Comovi-me com o cão mais simpático do mundo, ri-me com os excessos do bêbado mais divertido de todos, o Capitão Haddock. Ao Hergé, genial criador destas histórias ficarei sempre grato pelos amigos que me proporcionou.

Com o passar dos anos, aquelas páginas passaram a ser refúgio e companhia, à medida que a vida se tornava mais complexa e o mundo parecia mais vasto e menos decifrável. Os personagens iam-se densificando. A cada releitura, descobria detalhes antes despercebidos, diálogos que se revelavam mais espirituosos, enigmas que cresciam em profundidade conforme a minha própria compreensão amadurecia. Havia sempre um novo segredo guardado entre os balões de fala, uma nuance nos olhares das personagens, uma nota de humor que só se revelava ao leitor mais atento. Assim, as aventuras de Tintim transformaram-se num território de familiaridade e surpresa, onde a infância encontrava refúgio e o espírito de aventura permanecia ao alcance das mãos.  

Por tudo isto em minha casa se cultiva este extraordinário herói e os seus amigos, e todos os anos se estreia em lugar de destaque um vistoso calendário temático publicado pela editora. E ainda hoje ao reencontrar um álbum em lugar nobre da estante, sinto a mesma emoção pueril, na expectativa de uma nova descoberta, como se a infância se deixasse viver, uma e outra vez, através da magia das linhas claras e cores vivas do desenho de Hergé. Ele é por certo responsável por muitas das mais felizes horas da minha infância, e por isso ser-lhe-ei sempre grato.

Texto adaptado duma troca de impressões escritas, no tempo áureo dos blogs.