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João Távora

Viver na normalidade

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Penso que pouca gente razoável não se congratula com os acontecimentos de há 50 anos, que travaram uma tomada de poder à força pela esquerda do PCP e de outros credos mais finos, e deram início a uma lenta ocidentalização da nossa democracia. Muitas duras batalhas foram travadas até chegarmos perto de alguma normalidade, aí nos anos oitenta, com a revisão da Constituição e a integração europeia. Mário Soares era ufano desse trajecto patriótico, já Sá Carneiro e Amaro da Costa não chegaram a usufruir dos resultados da dura luta que travaram pela liberdade. Foram tempos realmente difíceis.

O PS comete um erro grave ao assumir ambiguidade na celebração do 25 de Novembro. Percebe-se a atracção exercida pelo espaço à sua esquerda quando pragmaticamente se aliou à esquerda revolucionária, digamos assim, para arquitectar a geringonça. A factura chegou depois, e com juros: o espaço à esquerda da esquerda vem diminuindo, perdendo atractividade; o populismo e o radicalismo mudou de geografia, experimenta por estes dias o outro lado do hemiciclo por razões diversas. Será um erro muito grave dos socialistas abandonarem o espaço da moderação e da razoabilidade à AD.  Se o PS não se quiser tornar irrelevante, é melhor juntar-se ao imenso eleitorado pouco ideológico que, tendo vivido ou recebido ecos dos excessos esquerdistas do PREC, anseia viver em paz e sossego num Portugal próspero. Uma ambição ainda difícil de realizar nas actuais circunstâncias, mas um sonho legítimo. Só possível sem aventuras revolucionárias ou fantasias Woke.

Post Scriptum: Em sinal de protesto as cadeiras do PCP no hemiciclo do parlamento estiveram vazias nas celebrações do 25 de Novembro, data em que a liberdade venceu a tirania. São tão poucas que quase não se notava e isso é bom.

Tempos de turbulência  

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Vivemos uma época marcada por um ruído ensurdecedor. Os discursos, cada vez mais radicais, ecoam por toda a parte: nos parlamentos, nas redes sociais, nos encontros de café. A ameaça de guerras eclode nas manchetes dos jornais e nos debates de opinião, criando um clima de desorientação onde o medo e a confusão parecem ganhar terreno. A guerra fria reentrou no léxico corrente, a ameaça nuclear paira de novo. Em termos domésticos os extremismos erguem-se impantes, alimentados por ressentimentos antigos e desilusões recentes. As redes sociais exponenciam a gritaria da multidão zangada, que se expressa sem filtros e sem maneiras. Moderação é fraqueza, ribombam os tambores de guerra – estamos fartos de bem-estar. O problema é que pusemos tudo em causa, foram anos de desconstrução militante. Quem disse que a civilização e as instituições que a ergueram resistia a tudo? Será que o pendulo regressa ao ponto de partida?

As instituições, mesmo imperfeitas – sejam elas democráticas, jurídicas, educativas, religiosas ou culturais – têm servido, ao longo dos séculos, como pilares de coesão social. São elas que garantem a continuidade no meio da mudança, a justiça perante a arbitrariedade, a proteção contra o autoritarismo e o caos. No entanto, a confiança nas instituições sofre abalos profundos quando estas deixam de responder às expectativas dos cidadãos, ou quando se mostram permeáveis à corrupção, à ineficácia ou ao clientelismo.

Se as instituições são a estrutura, os valores são o cimento. São os princípios éticos que atravessam gerações e que, mesmo quando postos à prova, mantêm a sua relevância: a dignidade humana, o respeito pela diferença, a honestidade, a solidariedade, a justiça. Esses valores, longe de serem dogmas imutáveis, requerem constante reflexão e atualização para não se tornarem instrumentos de exclusão ou de moralismo vazio. Mas são, ainda assim, as âncoras que impedem a sociedade de naufragar no relativismo absoluto ou na barbárie.

A leviandade na comunicação é, talvez, um dos sintomas mais visíveis da crise contemporânea. Palavras ditas sem pensar, fake news, insultos e generalizações: tudo isto mina a possibilidade de diálogo e aprofundamento. É fundamental recuperar o valor da palavra ponderada, do debate informado, da escuta ativa. Só assim se criará um espaço público saudável, onde o desacordo não se transforma imediatamente em hostilidade.

Talvez que, afinal de contas, reclamar por instituições sólidas e valores perenes seja pedir por chão firme numa época de terramotos. O problema é que esse chão não se constrói de cima para baixo, nem se herda sem esforço. Exige cidadania ativa, compromisso ético e vontade de refazer pontes onde só restam escombros. Talvez seja este o maior desafio do nosso tempo: não nos resignarmos ao cinismo, nem nos rendermos à raiva, mas construir, juntos, a casa comum do cristianismo. Talvez estejamos todos distraídos a olhar para o dedo que nos quer apontar a lua.

Tenho quatro filhos e preocupa-me o mundo que lhes deixamos, e pelo qual de alguma forma sou responsável. Talvez por isso não desisto de acreditar num futuro onde não sejam os gritos, mas as vozes ponderadas e os gestos solidários, a definir o rumo coletivo.

Mas como construir um rumo colectivo nesta cultura hiperindividualista?

Na imagem: reprodução de Guernica de Pablo Picasso

 

Deixem-nos trabalhar!

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Extraordinário é que ao fim de 50 anos o país continue refém dos sindicatos comunistas, que querem presentear o país urbano com uma Greve Geral. Claro que o incómodo se fará sentir principalmente nos serviços prestados directa ou indirectamente pelo Estado, justamente por aqueles funcionários que vivem refastelados nas garantias e privilégios que lhes garante um ordenado ao fim do mês. O país real, mal ou bem, contornará as contingências mitigando o impacto da greve nas suas vidas, que será enorme nos noticiários, bem se vê. Extraordinário é que o país real não se rebele contra a classe minoritária, uma bolha partidária, que apesar da irrelevância eleitoral, de tempos a tempos faz prova de vida violentando o povo que precisa de trabalhar, bloqueando os transportes públicos, as escolas e os hospitais.

Esta é a prova da enorme desigualdade que grassa neste jardim à beira-mar plantado: toda uma população, sedenta de trabalho para pôr pão na mesa, refém de 8% de trabalhadores sindicalizados e dos partidos que os manipulam. Este facto é a confirmação de que urge uma reforma radical na Lei Laboral. Como em muitas outras coisas em Portugal, coexistem dois países: o do antigamente agarrado a velhos privilégios, como rendas de casa baratas ou emprego para a vida, e a enorme maioria silenciosa que já aprendeu como irritar os responsáveis pelas suas misérias: votar no Chega.

A propósito: gostava de saber qual a posição do Chega no que refere ao Pacote Laboral de Montenegro, e à greve geral anunciada pelo Partido Comunista, escondido atrás da CGTP.