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João Távora

Balanço de 2025: Entre Brumas, Salamandras e o Bicampeonato

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Chegámos ao fim de mais um ano — não sei bem como, mas cá estamos, firmes, vacilantes e com uma resistência à política nacional, assunto que em tempos não muito longínquos me apaixonou, digna de super-herói esfarrapado. A sensação de que, quase ao fim de uma vida, pouco ou nada muda, a noção da repetição dos casos e temas irresolúveis, é uma canseira.  A conflitualidade acirrada e o insulto gratuito, antes apanágio dos marginais, democratizou-se. Se o campeonato fosse de promessas vazias e debates malcriados, estaríamos a celebrar um pentacampeonato nacional, mas, infelizmente, ganhámos apenas olheiras e um profundo desejo de alienação. Lá fora os sinais são parecidos, e a guerra a fervilhar à porta da frágil Europa, cheia de vícios e vazia de si…

As notícias tornaram-se tão desagradáveis que, num zapping neurótico, fujo dum debate para uma acesa discussão de bola, erros desumanos e vídeo-árbitros… para me acabar por refugiar nas páginas duma melancólica biografia dum rei outrora assassinado.

Sem dar demasiado nas vistas, o ano de 2025 passava, e a velhice, essa artista, cavou novas rugas na minha cara com inaudita criatividade. Enquanto isso, paulatinamente a geração acima vai-se retirando do palco da nossa vida, sem direito a encore, deixando-nos a sós com as memórias que nos fazem e dão sentido à caminhada.

Os filhos, esses que em tempos rodopiavam e palravam em disputas pela casa afora, descobriram que a independência é um prato que se serve frio, de preferência fora de casa. Voltam apenas para os clássicos: uma bainha para a mãe coser, refeições dominicais e, com alguma sorte, companhia para ver à bola. A casa, agora, na maior parte do tempo faz eco até do silêncio. E o cão muda preguiçosamente de lugar, enrolado em si mesmo.

Felizmente, repetiram-se as almoçaradas com amigos, onde a boa conversa se aquece à mesa e o vinho nunca está demasiado longe. Nesses momentos, o futuro engana-nos e surge-nos cheio de promessas, com a aparelhagem a bombar os meus clássicos — agora sem ninguém a protestar ou pedir para baixar o som. Um pequeno luxo, mas já ninguém me tira esta vitória doméstica de fim de semana.

Entre tanto nevoeiro e chuva, estamos a aprender, a minha mulher e eu, a sobreviver ao nosso prolongado Outono: a salamandra na sala, é monarca absoluta mesmo quando o frio tardava. E a aguardente velha, Santo Deus, alquimista do ânimo naquelas tardes mais longas. Se 2025 nos trouxe motivos de celebração, foi o Sporting bicampeão. A família festejou, mas eu já não fui ao Marquês. 

Preocupante é verificar que o mundo está mesmo coberto por uma bruma espessa, ou talvez seja dos meus óculos que precisam de ser limpos, já não sei. O que sei é que, entre salamandras, goles de aguardente, episódios de ironia involuntária, noites em Alvalade, rock clássico a ecoar pelas paredes e almoços partilhados entre amigos, sobrevivemos a mais um ano. O próximo vem com eleições presidenciais, imaginem só…

Deus nos guarde, que isto pode sempre piorar!

Frouxo é a tua tia

Circula pelas redes sociais um ‘post’ do Chega em que o André Ventura afirma em letras garrafais (e podia ser de outro modo?) que “Cancelar as fotos ou as luzes de Natal para ser ‘inclusivo’ com os imigrantes de outras regiões é um disparate e uma traição à nossa identidade.” Pois, definitivamente os imigrantes não gostam nada de luzinhas, e menos ainda de fotos, esse símbolo da decadência ocidental. Ocidente esse que enche as suas praças e avenidas de 'luzinhas' a piscar sem uma única menção ao Natal ou a Jesus Cristo.

Até parece que André Ventura evita falar do Presépio e do nascimento do Salvador para não ofender os seus correligionários ateus ou a laicidade do Estado...

A importância do Presépio

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Lisboa, com as suas ruas iluminadas e praças enfeitadas, revela nesta época natalícia o pulsar de uma tradição muito portuguesa. Afinal os símbolos do Natal cristão, espalhados pela cidade, não são apenas decorações; são gestos de hospitalidade e convites ao encontro. Como anunciaram os anjos aos pastores em Belém: Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade (Lucas 2:14).

Por isso é urgente e decisiva a afirmação dos símbolos cristãos na nossa cidade. A presença do presépio nas casas portuguesas e, fundamentalmente nos espaços públicos de Lisboa, representa uma mensagem universal de esperança e solidariedade, não só para os forasteiros, mas para aqueles que, rendidos ao cinismo, julgam bastar-se a si mesmos.

Num tempo marcado pelo individualismo e laicização, e pela estranheza das múltiplas culturas que vêm procurar uma vida nesta cidade, o presépio surge como um testemunho silencioso, mas eloquente, da importância do Natal. Ora, o Natal é acolhimento. O Menino Jesus convida todos, independentemente da sua etnia ou nação, a partilhar a mesa comum da humanidade, ilustrando que a tradição cristã de Lisboa não exclui, mas sim integra e valoriza a diversidade. Assim, o presépio permanece como sinal vivo de uma cultura que afirmando a centralidade do amor na construção de uma sociedade mais justa e inclusiva. Convenhamos que cada figura do presépio relembra, afinal, que o verdadeiro espírito natalício reside na capacidade de abrir o coração ao próximo, de acolher sem distinção e de celebrar a dignidade de cada indivíduo. A esperança de um mundo onde todos têm lugar e recebem do mesmo Amor. “Não há judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher, pois todos são um em Cristo Jesus” (epístola de São Paulo aos Gálatas 3:28).

Num tempo em que a diversidade cultural molda o quotidiano lisboeta, é urgente afirmar de onde vimos para melhor abraçar quem chega… enquanto é tempo. É nessa perspectiva que o presépio, humilde e silencioso, ergue-se como testemunho de uma mensagem universal: o triunfo do amor sobre o egoísmo e a ganância. Por isso há que multiplicar os presépios, dentro e fora das Igrejas, nos adros e nas praças de Lisboa, ou nas montras e átrios dos Centros Comerciais. Acontece que este símbolo, é nascido de uma tradição que exalta a importância do indivíduo como criatura de Deus, única e irrepetível, reflecte uma cultura que soube construir pontes e abrir portas.

Alegram-me as luminosas decorações de Natal que nesta quadra se exibem nas ruas antigas da capital. Se servirem para afirmar a matriz cristã que formou Portugal. Que ela seja capaz de inspirar os sonhos de quem por cá procura um espaço de tolerância e de prosperidade, longe de opressões, fomes, e de guerras.

Afinal de contas os maiores inimigos da Igreja em Portugal, sejam jacobinos ou esquerdistas, sempre foram brancos, licenciados e bem-falantes, com uma pronúncia imaculada.

Na fotografia:  Presépio na Cidade - iniciativa da Igreja dos Mártires

Um desastre anunciado

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Portugal atravessa uma transformação silenciosa e profunda que nos deveria inquietar a todos: o envelhecimento acelerado da sua população. Segundo os dados do Instituto Nacional de Estatística, em 2024, cerca de 23% dos portugueses tinha mais de 65 anos, colocando o país entre os mais envelhecidos da Europa. Este fenómeno não se limita a números; traduz-se numa mudança estrutural na forma como vivemos, cuidamos e nos relacionamos nas comunidades urbanas e rurais.

A família portuguesa, outrora pilar de sustento e conforto na velhice, tem vindo a perder protagonismo. O aumento de famílias monoparentais, a perda de influência da Igreja Católica e do papel social das Paróquias, a dispersão geográfica dos membros e as exigências da vida moderna fragmentaram o tecido social que tradicionalmente apoiava os mais velhos.

O envelhecimento acelerado de Portugal revela-se não apenas uma estatística alarmante, mas uma tragédia que se desenrola debaixo dos nossos olhos. A cada dia, assistimos ao esvaziar das aldeias, aos bancos de jardim ocupados por rostos marcados pela solidão, e às casas iluminadas apenas pela luz da televisão, onde a ausência de companhia se faz sentir como um frio cortante. Hoje, demasiados dos nossos velhos vivem sozinhos ou em isolamento, privados do convívio e do suporte emocional que antes era garantido pela proximidade familiar.

As Paróquias mais robustas e as IPSSs esforçam-se por dar assistência domiciliar a estes náufragos sociais, e também por responder à crescente procura de lares de terceira idade, mas a oferta permanece manifestamente insuficiente. Segundo a Associação de Apoio aos Idosos, apenas 4 em cada 10 pedidos de vaga em lares públicos conseguem resposta, e os preços dos lares privados ultrapassam frequentemente o orçamento da maioria dos pensionistas. Para muitos, a alternativa é permanecer em casa, contando com apoios domiciliários que são, na melhor das hipóteses, intermitentes. Noutras situações mais radicais, o único refúgio possível é uma cama dum hospital público onde vêm a morrer na mais profunda solidão e indigência.

Muitas dessas pessoas sós são aquelas que, por não terem descontado para a Segurança Social — como trabalhadores liberais, artistas e outros profissionais independentes — se encontram sem qualquer rede de proteção. Estima-se que mais de 300 mil portugueses acima dos 60 anos estejam nesta situação vulnerável, privados de pensão regular e de acesso facilitado aos serviços sociais.

Como se vê, isto tem tudo para correr mal a breve trecho: mais de 40% dos idosos em Portugal vivem sozinhos, e o índice de dependência dos mais velhos, um indicador demográfico que mede o peso da população idosa sobre a população em idade activa, já ultrapassa os 56%. Esta realidade tem implicações profundas, não apenas para os próprios velhos, mas para as gerações futuras, que enfrentarão o desafio de cuidar de uma população cada vez mais envelhecida, frágil e isolada. O impacto social é evidente no aumento dos casos de solidão, depressão e abandono, enquanto a pressão sobre os sistemas de saúde e segurança social se intensifica.

Se nada for feito, o país arrisca-se a perpetuar um ciclo de exclusão e vulnerabilidade, onde o envelhecimento deixa de ser uma etapa digna da vida para se tornar uma experiência sinistra de solidão e dor. O desafio não é apenas económico, mas sobretudo humano: exige uma resposta coletiva, coisa em que acredito pouco, que valorize o papel dos idosos, a criação de mecanismos de reforço os laços comunitários e assegure o acesso universal a apoios dignos e adequados.

A experiência que vou vivendo na minha família alargada com a geração dos meus pais, já quase nonagenária, apesar da relativa coesão familiar existente, mostra-se desafiante para todos. Dá para imaginar o que será para outras famílias mais desfavorecidas ou desagregadas. O envelhecimento da população portuguesa é um problema funesto no contexto actual, e a mitigação dessa tragédia exige urgente compromisso e ação coordenada de entidades públicas, privadas e da sociedade civil. Só assim será possível garantir que envelhecer em Portugal não signifique viver à margem num inferno terreno, como que um inclemente castigo dos deuses profanos.