Balanço de 2025: Entre Brumas, Salamandras e o Bicampeonato
![]()
Chegámos ao fim de mais um ano — não sei bem como, mas cá estamos, firmes, vacilantes e com uma resistência à política nacional, assunto que em tempos não muito longínquos me apaixonou, digna de super-herói esfarrapado. A sensação de que, quase ao fim de uma vida, pouco ou nada muda, a noção da repetição dos casos e temas irresolúveis, é uma canseira. A conflitualidade acirrada e o insulto gratuito, antes apanágio dos marginais, democratizou-se. Se o campeonato fosse de promessas vazias e debates malcriados, estaríamos a celebrar um pentacampeonato nacional, mas, infelizmente, ganhámos apenas olheiras e um profundo desejo de alienação. Lá fora os sinais são parecidos, e a guerra a fervilhar à porta da frágil Europa, cheia de vícios e vazia de si…
As notícias tornaram-se tão desagradáveis que, num zapping neurótico, fujo dum debate para uma acesa discussão de bola, erros desumanos e vídeo-árbitros… para me acabar por refugiar nas páginas duma melancólica biografia dum rei outrora assassinado.
Sem dar demasiado nas vistas, o ano de 2025 passava, e a velhice, essa artista, cavou novas rugas na minha cara com inaudita criatividade. Enquanto isso, paulatinamente a geração acima vai-se retirando do palco da nossa vida, sem direito a encore, deixando-nos a sós com as memórias que nos fazem e dão sentido à caminhada.
Os filhos, esses que em tempos rodopiavam e palravam em disputas pela casa afora, descobriram que a independência é um prato que se serve frio, de preferência fora de casa. Voltam apenas para os clássicos: uma bainha para a mãe coser, refeições dominicais e, com alguma sorte, companhia para ver à bola. A casa, agora, na maior parte do tempo faz eco até do silêncio. E o cão muda preguiçosamente de lugar, enrolado em si mesmo.
Felizmente, repetiram-se as almoçaradas com amigos, onde a boa conversa se aquece à mesa e o vinho nunca está demasiado longe. Nesses momentos, o futuro engana-nos e surge-nos cheio de promessas, com a aparelhagem a bombar os meus clássicos — agora sem ninguém a protestar ou pedir para baixar o som. Um pequeno luxo, mas já ninguém me tira esta vitória doméstica de fim de semana.
Entre tanto nevoeiro e chuva, estamos a aprender, a minha mulher e eu, a sobreviver ao nosso prolongado Outono: a salamandra na sala, é monarca absoluta mesmo quando o frio tardava. E a aguardente velha, Santo Deus, alquimista do ânimo naquelas tardes mais longas. Se 2025 nos trouxe motivos de celebração, foi o Sporting bicampeão. A família festejou, mas eu já não fui ao Marquês.
Preocupante é verificar que o mundo está mesmo coberto por uma bruma espessa, ou talvez seja dos meus óculos que precisam de ser limpos, já não sei. O que sei é que, entre salamandras, goles de aguardente, episódios de ironia involuntária, noites em Alvalade, rock clássico a ecoar pelas paredes e almoços partilhados entre amigos, sobrevivemos a mais um ano. O próximo vem com eleições presidenciais, imaginem só…
Deus nos guarde, que isto pode sempre piorar!