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João Távora

Coisas que já (quase) não interessam a ninguém

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Num recente podcast da rádio Observador “Português Suave”, excelente programa sobre os enigmas que a língua portuguesa encerra realizado pelo linguista Marco Neves, foi abordado o tema das marcas que se tornaram nomes comuns como "tupperware", ou "Jeep" e outras. Nesse programa notei num erro, ou pelo menos uma omissão, quanto à origem do nome “Jeep” que considero pertinente esclarecer, até pela graça da história. Nele afirma-se que Jeep é uma marca, que com o tempo se tornou a designação de todos os veículos todo-o-terreno, e é aqui que importa explicar o equívoco. A marca a que Marco Neves se queria referir é a americana Willys, cujo modelo usado na II Guerra Mundial foi baptizado com o nome “Jeep” devido à coincidência da sua versatilidade com a do espantoso personagem "Eugene, the Jeep" das tiras de quadradinhos do Popeye, que apaixonou a América de então, em especial os militares deslocados para o teatro de guerra. Por causa disso, nas referidas viaturas e em diverso material bélico era pintado um decalque da mágica criatura, que os militares acreditavam dar sorte nas missões.

Eugene the Jeep é um fantástico ser mágico, uma ternurenta personagem amarela, com habilidades sobrenaturais, criada por E.C. Segar em 1936 para a banda desenhada Thimble Theatre (Popeye). Importado da África como presente para Olivia Palito, a namorada do Popeye, o "Jeep" é um animal sábio, capaz de comunicar por telepatia, adivinhar o futuro e atravessar dimensões, comunicando apenas com a palavra "Jeep".

Quem não sabe, não invente

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Há histórias que, ao longo dos anos, se entrelaçam nos cantos da memória colectiva, até que já não sabemos bem onde começa uma e acaba a outra. Tal é o caso de “Pedro e o Lobo”, obra musical composta por Serguei Prokofiev em 1936, e da fábula ancestral “O Pastor Mentiroso e o Lobo”, frequentemente atribuída a Esopo, escritor da Grécia Antiga conhecido pelas suas fábulas. Curiosamente, vem sendo a fama de uma a dar nome ao protagonista da outra – uma troca que diz tanto sobre a força da ignorância como sobre o poder das coincidências. Assim, comecemos por explicar o que é uma e outra coisa:

Prokofiev compôs “Pedro e o Lobo” a pedido do Teatro Central Infantil de Moscovo, com um objectivo pedagógico: ensinar às crianças os sons e os timbres dos instrumentos da orquestra. Cada personagem ganha vida através de um instrumento: Pedro, corajoso, representado pelas cordas; o pássaro, ágil, pela flauta; o pato, desajeitado, pelo oboé; o gato, furtivo, pelo clarinete; o avô, grave e ponderado, pelo fagote; e o lobo é evocado de forma ameaçadora pelas trompas. Os caçadores chegam com os tiros de percussão. A narrativa mistura aventura e aprendizagem, onde Pedro, com astúcia e a ajuda dos seus amigos animais, captura o lobo, transformando o medo em triunfo e a música em lição.

Por outro lado, encontramos a fábula “O Pastor Mentiroso e o Lobo”. Trata-se de um conto muito mais antigo, datado provavelmente do século VI a.C. e atribuído ao lendário Esopo, cuja obra atravessa séculos e fronteiras. Na fábula, um jovem pastor, aborrecido e ávido por atenção, grita “Lobo!” apenas para ver o alvoroço na aldeia. Quando, num certo dia o perigo se torna real e o lobo aparece, ninguém acredita no seu apelo, e as ovelhas foram devoradas pela fera. A moral é clara: quem mente perde a confiança dos outros. Curiosamente, o pastor nunca recebeu nome próprio nas versões clássicas; é apenas “o pastor”, uma figura anónima, personagem tipo, que serve de espelho à humanidade e aos seus vícios.

A coincidência surge ironicamente quando, devido à popularidade da peça de Prokofiev, jornalistas e contadores de histórias ignaros começaram a chamar “Pedro” ao pastor da fábula de Esopo. Não sei se se passa assim noutros países. Assim, no imaginário infantil, ambos os protagonistas – o corajoso menino da música russa e o mentiroso da fábula grega – tornaram-se um só. Mas é um erro, uma confusão: na verdade, o valente “Pedro” pertence exclusivamente à obra musical, enquanto o cobarde pastor da fábula não tem nome.

Para muitos talvez seja irrelevante o nome que damos aos protagonistas, mas é fascinante observar como uma peça musical do século XX acaba por influenciar a forma como contamos uma fábula com mais de dois milénios. A minha educação musical foi profunda e precocemente marcada pela obra de Serguei Prokofiev, irrita-me solenemente que chamem Pedro ao pastor preguiçoso, e parece-me da maior conveniência a reposição da verdade neste aspecto. O universo agradece, e os Pedros também.

A prisão de André Mountbatten-Windsor

A detenção do irmão do Rei de Inglaterra esta quinta-feira “por suspeita de má conduta no exercício de cargo público” constitui um escândalo para um monárquico que exige dos elementos que representam essa instituição uma conduta irrepreensível.

Por outro lado, essa detenção é em si um sinal de que os britânicos podem confiar no seu sistema político, a monarquia, em que vivem: o sistema, “onde ninguém está acima da lei”, funciona. A situação leva-nos a supor que só numa democracia extremamente evoluída a justiça consegue funcionar deste modo independente, onde, como diz o Vice-primeiro-ministro britânico "Ninguém neste país está acima da lei". Perguntamo-nos em quantas repúblicas por esse mundo fora (desde logo a nossa) tal seria possível.

Mas hoje é um dia infeliz para os monárquicos. Nos sistemas políticos modernos, complexos e transparentes, que só são possíveis com instituições fortes, os representantes da coroa (que nos dias que passam possuem um papel em grande medida simbólico) carregam sobre si a exigência do exemplo, de uma conduta irrepreensível. Para aqueles que acreditam que a Família Real é um importante activo para os equilíbrios políticos e sociais nas mais antigas (e livres) nações europeias, a prisão de André Mountbatten-Windsor é uma má notícia. Uma má notícia para a civilização ocidental.

O que nos vale é que a má notícia em si mesma significa a capacidade de um regime se corrigir e regenerar. Os outros, também feitos por seres humanos, não se corrigem, e quando o fazem é à custa de rupturas muito mais dolorosas e sangrentas. Para sofrimento do povo.

Publicado originalmente aqui

As cinzas da civilização

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Num zapping rápido ao chegar a casa constato que os canais de notícias estão todos a debater em grande berraria o caso acontecido ontem durante o jogo entre o Benfica e o Real Madrid na Liga dos Campeões, em que o extremo benfiquista Prestianni, tapando a boca, alegadamente e sem que se possa fazer disso prova, terá proferido insultos racistas contra o jogador madrileno Vinícios. Pelo tom dos debates, tudo leva a crer que o jogador benfiquista está condenado à partida e sem julgamento, porque a expressão de racismo é, nos dias que passam, o mais hediondo crime à face da terra. Por isso se exige-se uma educativa imolação de um cordeiro sacrificial para pedagógica lição da populaça.

Sinal destes laicos tempos, pensei eu, lembrando-me que hoje é Quarta-Feira de Cinzas, início da Quaresma. Para quem não sabe, explico que as cinzas, que num ritual da tradição católica hoje serão na Missa impostas na testa dos crentes em forma de cruz, possuem um carácter simbólico, como chamamento à conversão, à penitência e à mudança de vida, bem como à recordação da condição frágil e transitória da existência humana. Do pó todos viemos e ao pó retornaremos – negros, brancos, amarelos, peles vermelhas e outras etnias.

Vale a pena tanta gritaria por causa duma altercação entre jogadores de futebol?

Não é proibido proibir

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A pesada herança do Maio de 68 teve ontem mais um pequeno revés, mesmo que simbólico, na proclamação da sacrossanta liberdade individual face aos repressivos limites morais e sociais. Entre os derrotados desse desígnio da modernidade, imagine-se, esteve em São Bento o Partido Chega inconformado com as restrições aprovadas por sólida maioria. Refiro-me à proposta que ontem foi vencedora no parlamento de proibição do acesso autónomo a redes sociais, serviços de partilha de vídeos e de comunicação aberta por crianças menores de 16 anos. Nesses conteúdos disponíveis sem qualquer filtro, na selva a que os pequenos ecrãs acedem ao simples premir do indicador, encontram-se as mais inconcebíveis aberrações e excitações imediatistas. Evidentemente que a medida levanta questões que não se esgotam numa resposta simples. Entre o zelo pela saúde mental dos nossos infantes e o respeito pela liberdade, desenha-se um debate que toca o coração de todos. Mas o sinal é largamente positivo: já não é “proibido proibir”.

Numerosos são os estudos que alertam para os impactos negativos das redes sociais na saúde mental das crianças e adolescentes: ansiedade, depressão, distúrbios do sono e até a chamada “dependência digital” são frequentemente apontados como consequências do uso excessivo. O corpo e o cérebro em desenvolvimento das crianças reagem de forma diferente à exposição constante a estímulos digitais, podendo comprometer o seu bem-estar e acuidade a longo prazo. Há quem diga que com esta proibição se está a ignorar a importância da literacia digital, mas é um erro só justificado vindo de quem não sabe como se procede à formação de um bom utilizador das tecnologias – exige concentração e estudo. Por certo que não é com jogos electrónicos ou partilha de mensagens ou vídeos curtos.

Certo é que pela primeira vez na história moderna, estudos indicam que os filhos apresentam um Quociente de Inteligência (QI) inferior ao dos pais, fenómeno conhecido como Efeito Flynn inverso. A principal causa apontada pelos especialistas, como o neurocientista Michel Desmurget, é o consumo excessivo de tecnologia e ecrãs (telemóveis, tablets, computadores) que substituem as normais brincadeiras, investigações, jogos e convívios entre crianças e jovens.

É fundamental a protecção da infância da vertigem dos ecrãs dos telemóveis. Sei por experiência própria o desafio que constituiu defender as nossas crianças da irresistível atracção pelo digital, num tempo em que as redes sociais ainda eram algo incipientes. O hipnótico poder de distracção do telemóvel face ao estudo e à leitura, para não falar do convívio social e familiar foi um factor desde o início evidente para nós pais. O esforço de orientação e imposição de regras para o seu uso foi exigente, convenhamos que nem sempre bem-sucedido, e tenho dúvidas que muitas famílias tivessem capacidade ou condições de o exercer como fizemos em nossa casa.

Reconheço que, se por um lado, as redes sociais podem isolar, criando bolhas de solitários, por outro, também permitem novas formas de convívio, aproximação e partilha. Tenho dúvidas que a proibição consiga grandes resultados no regresso da miudagem ao contacto presencial, aos jogos no recreio, à confraternização e confronto cara a cara, mas é um passo no bom sentido. O desafio está em criarem-se espaços seguros para a interacção online, valorizando o equilíbrio entre ambos os mundos, sempre com a supervisão parental. Não vejo problema que a liberalização só aconteça depois dos dezasseis anos. No entanto, temos de admitir que legislar é mais fácil do que garantir o cumprimento da medida. Como controlar, de forma eficaz, o acesso de menores em plataformas globais, muitas delas sediadas fora do país? A tecnologia oferece sempre vias de contorno: falsificar a idade, usar contas de familiares, recorrer a VPNs.

Os pais, com a ajuda do Estado, podem e devem salvaguardar o bem-estar dos menores, mas sem esquecer que cada jovem é um ser em formação, capaz de aprender, errar e crescer. Simplesmente proibir para proteger pode ser um paradoxo, se o resultado for a limitação da autonomia e da responsabilidade pessoal. A questão fulcral reside aqui: até onde vai o direito à liberdade individual? As crianças têm direito à informação, à expressão e ao convívio, mas o seu maior direito é à protecção.

Voltemos ao Maio de 68, que tanto dano trouxe às estruturas sociais e comunitárias do ocidente liberal. Assim como a venda de álcool e cigarros é restringida a adultos, supostamente capazes de moderar e assumir os riscos do seu consumo; assim como se exige a maioridade a um individuo para conduzir um automóvel, que afinal pode constituir uma arma letal, parece-me muito bem a restrição do acesso autónomo das crianças a redes sociais, serviços de partilha de vídeos e de comunicação aberta.

Publicado também aqui

Tanta água...

Esta chuva persistente faz-me lembrar a cena em Macondo, de “Cem anos de Solidão”, quando após décadas de acontecimentos extraordinários, por quatro anos, onze meses e dois dias uma chuva interminável caiu sobre a cidade. Como nos acontece por estes dias em Portugal, no conto de Gabriel Garcia Marquez a chuva constante tornou-se parte da rotina dos habitantes de Macondo trazendo uma melancolia silenciosa e alterando a paisagem, até que o esquecimento e o isolamento se instalaram de vez. É o que dá tanta água, que, além das cheias e derrocadas, nos encharca a alma, e nos faz ansiar por uns raios de sol, que tardam.

Só nos falta perder a fala…

No pasa nada (só um dilúvio)

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A segunda volta das Presidenciais promete ser uma eleição tão empolgante quanto assistir à pintura de uma parede a secar num dia de chuva. Não haverá surpresas, ninguém irá surpreender ninguém, e Seguro vai ganhar limpinho, limpinho. Lamento informar os mais lunáticos.

Como contraste, o ambiente da campanha eleitoral que emana das redes sociais (o desinteresse pela eleição e o diluvio em curso tiraram a campanha das ruas), é um espectáculo de exagerada agressividade e dramatismo, totalmente desproporcional para um resultado tão previsível e… inconsequente. Estamos condenados a cinco anos de António José Seguro que promete uma postura institucional, aborrecida e cinzenta, a contrastar com dez anos de prolixa informalidade do incontinente Marcelo. Não posso afirmar que “é melhor que nada” porque sinceramente acho que “nada” seria sempre melhor que isto.

Talvez houvesse algum motivo para sobressalto se Ventura, marcado pelo seu frenético histrionismo hedonista, tivesse alguma hipótese de vencer. Secretamente até gostaria de assistir ao mandato a comer pipocas: seria a definitiva descredibilização do “Presidente da República”. Sejamos francos: como poderia Ventura, subitamente assumir uma postura séria, aprofundar dossiers, impedir bloqueios, fazer diplomacia (!) promover reformas difíceis e dizer coisas ponderadas e sensatas à entrada ou saída dos eventos? Mas desiludam-se, as sondagens deixam claro: quase três em cada quatro eleitores ou têm medo dele, ou simplesmente não o levam a sério. Não conta.

Por isso é que eu mantenho que a direita persiste minoritária em Portugal. O Chega é a secreta bênção, o autêntico seguro de vida das esquerdas. As linhas vermelhas são inúteis. André Ventura, apesar de protestar mais do que uma buzina avariada, não tem qualquer idoneidade ou talento para construir algo. Não é fiável para fazer parte de algum projecto sério, liberal, conservador ou tradicionalista, com que a esquerda verdadeiramente tivesse de se preocupar. Se um dia ele resolvesse falar a sério, se deixasse de lado as suas frases bombásticas e inconsequentes com intenção de fazer parte duma solução, já ninguém nele acreditaria, diriam que estava possesso por uma alma do outro mundo.  O seu “verdadeiro povo”, que é como uma claque, sentir-se-ia traído, para rapidamente o abandonar – já viram quão imprevisíveis são as claques? Suspeito que Ventura para a História constará apenas como um curto episódio, perturbador, é certo, mas sem deixar obra ou legado, um desperdício de tempo e emoções.

As eleições de Domingo serão apenas a confirmação de que, por falta de comparência, um socialista fará sozinho e em ombros o percurso para o Palácio de Belém, numa eleição que, se marcar a história, será apenas por ter batido o recorde nacional de abstencionismo e votos nulos ou brancos.

Imagem daqui