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João Távora

Mentes mesquinhas

A polémica causada pelos lugares de estacionamento “rosa” do Centro Comercial 8ª Avenida em S. João da Madeira ainda me consegue espantar. Para quem não saiba, refiro-me a quatro lugares exclusivos para mulheres, mais à larga e estrategicamente posicionados para um fácil estacionamento automóvel. Após denúncia do Bloco de Esquerda à Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género, que deu razão aos queixosos, a Sonae, proprietária do espaço comercial, prepara-se para repor a normalidade, ou seja, lugares iguais para todos - informa-nos o Diário de Notícias de hoje. Graças aos queixosos, os "queixinhas" do costume, a injustiça flagrante é devidamente reposta.


Desde sempre que me ensinaram a discriminar positivamente a mulher, atitude que interiorizei precocemente. Através de persuasivos castigos, meus pais reprimiram-me de pequeno os meus instintos agressivos para com as minhas três irmãzinhas indefesas. “Nem com uma flor”, troçavam elas, do alto do seu privilegiado estatuto. Restava-me implicar com o meu irmão, com resultados deveras desencorajadores.  E foi à força de muitos ralhetes e alguns calduços que, quase como um reflexo condicionado, adquiri o hábito de conceder sempre a precedência às senhoras.


Hoje, ajo por convicção: considero que não é em vão que as mulheres deveriam ser sempre acarinhadas e favorecidas; sabemos bem como seríamos todos mais afortunados com mulheres mais felizes e realizadas... Com mais disponibilidade interior para exercerem a actividade mais encantadora da sua existência: serem amorosamente femininas. Como se sabe essa disposição, preciosa para a harmonia global, é constantemente frustrada pela bestialidade humana e pelas contingências da vida, com os trágicos resultados que se conhecem. Isso quanto a mim justifica toneladas de discriminação positiva: com o miúdo pela mão, carregada de sacos de compras, latas, legumes, pacotes, fraldas e algum capricho que seja, depois de um dia de trabalho, o mínimo que a minha mulher merece é um lugar mais fácil para estacionar o carro. Pelo menos enquanto eu não a presentear com o céu que um dia lhe prometi.

Neste frémito moralista instituído pelos modernos Calvinos da esquerda estabelecida e anafada, a única meta é nivelar a existência das pessoas tão baixo quanto as suas vidas frustradas e rancorosas. Mas isso já eu tinha entendido.

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