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João Távora

António Godinho Gil


Minimal


 

I - A vidinha a vidinha a vidinha a prestaçãozinha a vidinha a vidinha o fim de semaninha a vidinha a abstençãozinha a vidinha a cuequinha a vidinha a vidinha a missinha a vidinha o coitadinho o segredinho a vidinha a vidinha o poupadinho a vidinha a queixinha a vidinha o sofazinho a vidinha a vidinha o filhinho na escolinha a vidinha a vidinha o sossegozinho o alternezinho a vidinha o teatrinho a vidinha a vidinha as feriazinhas a vidinha a garagenzinha incluidinha a vidinha a vidinha a promoçãozinha a vidinha devagarinho devagarinho a vidinha a fintazinha a vidinha a vidinha o arranjinho o mais que tudinho as batatinhas a vidinha a vidinha a copulazinha sábado à noitinha a vidinha a vidinha a reformazinha a vidinha o dinheirinho a vidinha a vidinha o dominguinho a vidinha o queridinho a queridinha os pasteizinhos as pantufinhas o arzinho a viagenzinha o zezinho a vizinha o sorrisinho de manhãzinha devagarinho a virtudezinha o cuidadinho devagarinho a vidinha a vidinha a vidinha.

 

II - A vidinha lá fora, a vidinha a querer entrar, devagarinho, a vidinha a escusar-se graciosamente ao soco, ao pontapé, ao empurrão, aos cornos da verdade, a vidinha a crescer, a crescer numa voragem vegetal, imparável, a vidinha e as suas mil desculpas para não ser vidinha, a vidinha embaraçada por não conhecer a vertigem, o medo, o êxtase, a inquietude, a nudez, a vidinha a olhar para o relógio, a vidinha a querer passar por outra coisa, quando só quer ser vidinha, cada vez mais vidinha, exclusivamente vidinha, escancaradamente vidinha, eternamente vidinha, superlativa e esdrúxula, a vidinha circunspecta, a vidinha a esconder as suas grilhetas, a vidinha a assoar-se, a vidinha a ir às putas, a vidinha a corar, a vidinha a vidinhar, a vidinha a puxar as ligas, a vidinha agorafóbica, a vidinha vestida de preto, a vidinha a crescer, a vidinha a puxar a corda, a vidinha a tombar, graciosamente, é claro, a vidinha à minha espera.

 

III - A vidinha acorda. A vidinha irrompe na voz fanhosa do locutor. A vidinha coçante, descolhoante. A vidinha que nos segue para todo lado, com palavras grandes e outras que nada dizem. A vidinha a puxar para um passado que nunca existirá. A vidinha a chamar-nos, sem pudor, para o habitáculo possível. A tal que nos impingem nas escolas, nas cátedras, nos discursos edificantes, nos balcões da burocracia, na cultura, nos dois minutinhos de publicidade bancária na rádio, prometendo o céu em troca de juros a 20%. No final, vai-se ver, e o fato nunca nunca está à medida. Então entra a vidinha, refulgente, gloriosa. A tal. A da mentira sufocante. A esdrúxula, a inquietante, a pasteurizante, a rasticolante. Lembram-se?

 

António Godinho Gil (do blogue Boca de Incêndio)

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