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João Távora

O mundo na nossa mão (1)


 


Bem lançado, o Taunus verde eléctrico percorre veloz as tábuas polidas e enceradas do longo e escuro corredor. Na sua peugada chego eu em corrida e aterro de rabo à sua frente para um imaginário grande plano do bólide furtivo. Com o predilecto Lótus Europa em punho, reproduzo um peão bem calculado para, imitando o som duma travagem “à americana”, bloquear o seu caminho. De cara junto ao chão penetro com o olhar dentro da reluzente miniatura Matchbox, qual zoom que aponta ao seu volante, tablier e assentos monocromáticos. Com a imaginação fértil, visualizo o transtornado vilão ali sentado que prepara uma reacção à audaz artimanha de que foi alvo. Então, saco do pequeno carro da polícia que trago no bolso dos calções, encenando a sua chegada ao local da acção. Precipita-se assim o final da contenda e a vitória do “bom e valente herói”, que afinal sou eu próprio congeminado ali ao volante do potente Lótus. É tempo de interromper a brincadeira pois está na hora de ir à cozinha comer uma carcaça com manteiga, ou quem sabe, uma gemada a transbordar de açúcar.


Ainda hoje me extasio na montra daquela loja de modelismo e brinquedos caros nas Amoreiras, com aqueles espantosos modelos à escala quase reais, com conta-rotações no tablier, pedais metalizados, espelhos retrovisores e limpa pára-brisas. E como eram deslumbrantes as locomotivas e carruagens Marklim, aviões telecomandados e pistas Scalextric que na minha infância me detinham intermináveis horas de puro transe, com a cara colada às vitrinas da Quermesse Paris, ali aos Restauradores.

Esses desejos nunca se cumpriram, pois na minha família as prioridades eram outras. Os brinquedos mais parecidos que tive, foram imitações fabricadas no oriente e que acabavam invariavelmente esventradas no fundo do caixote das tralhas inutilizadas.

Isso dificilmente sucedia com os meus coloridos e variados carrinhos Matchbox, brinquedos difíceis de escangalhar. Era com os meus automóveis preferidos que eu passava tardes infindáveis estendido no chão da sala a brincar. Com as figuras geométricas do tapete turco, imaginava avenidas e travessas, auto-estradas e caminhos, cenários urbanos ou bucólicos para as intermináveis aventuras que inventava inspirado no último episódio dos Vingadores, do Fugitivo ou noutra série qualquer. E ao fim da tarde, lá na Praceta, armado com o modelo favorito, juntava-me à rapaziada para umas disputadas corridas desenhadas a giz no alcatrão.

Mais do que a bola e a bicicleta que me conquistariam mais tarde, elejo os meus carritos Matchbox como o brinquedo preferido da minha infância. Nada na vida me dava mais prazer que escolher e brincar com um carro novo, que seria o meu eleito até à chegada do seguinte, oferecido à vinda da missa pela minha avó, ou numa tarde de compras com a minha mãe. Com 12$50 elas sabiam que me podiam fazer absolutamente feliz... por muito tempo.

 

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