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João Távora

Hugo Ramos Alves


Projecções


 


Na essência, o Cinema surgiu com uma missão simples: documentar a realidade. Captar fragmentos da vida e projectá-los na alvura da tela. Depois veio a necessidade de distracção e, por arrastamento, a magia deslumbrante e a capacidade inesgotável de nos fazer sonhar com as peripécias de todos aqueles que foram sendo projectados no ecrã e se foram alojando na escuridão íntima de todos nós.


Ficamos na fronteira entre o mundo que vivemos e o mundo que foi projectado. Apesar de tudo, acabamos por nos deixar seduzir pela sala escura: é o fascínio, a mística, enfim, a curiosidade da criança que temos em nós. E será sempre com um brilhozinho nos olhos que veremos a sucessão de bonecos de luz fluir.


É um Mundo que satisfaz os nossos desejos e, ao mesmo tempo, espicaça a nossa curiosidade. Fugimos da vida que ficou à porta, junto à bilheteira, e passamos a fazer parte de outra. Uma vez acabada a projecção e acesas as luzes, abandonamos o nosso santuário e ora somos abraçados, ora somos esbofeteados pelo frio da avenida, voltando à espuma dos dias que tão bem conhecemos, mas de forma ligeiramente diferente.


O Cinema não acabou com o fim da projecção. Continua em nós, atormentando-nos e consolando-nos e, também, fazendo-nos interrogar a realidade que sentimos: desde o engraxador que nos lembra Umberto D, passando pelo empregado de balcão cujo sorriso malandro lembra Alberto Sordi, bem como a criança de olhar vazio colada ao vidro como Antoine Doinel. Visões excêntricas? Então o que dizer de famílias sentadas à mesa como nos filmes de Ozu ou de funcionários de gesto maquinal, tal e qual como um modelo de Bresson? Mais importante: actua sobre a realidade e faz com que teçamos analogias com aquilo que bem conhecemos. Basta pensar no homem que, a abrir Sicilia!, contempla a imensidão do mar, tal como nós, lusitanamente habituados a hiperbolizar o passado e a amaldiçoar o presente, negando-o.


Eis a grandeza do Cinema: agir sobre nós, dominando-nos e fazendo-nos habitar um mundo de espectros projectados na nossa alma, enquanto vamos aplicando à realidade aquilo que vimos. Sempre assim: entre a realidade e a ficção. Um manto diáfano que mais não é do que uma forma de filtrar o que os nossos olhos vêem e aquilo que a nossa vontade quer ver, fazendo com que, voluntária ou involuntariamente, acabemos por criticar o mundo que conhecemos. E assim continuamos, vagueando pela imensidão da cidade como o Samouraï de Melville, ou, em bom rigor, como uma personagem de Antonioni. À procura da vida que a monotonia do quotidiano nega.


 


Hugo Ramos Alves (do blogue Amarcord)

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