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João Távora

Carlos Manuel Castro


À espera de Copérnico antes que chegue Godot




A palavra (sentimento?) que mais palpita nestes tempos é crise. Pelo petróleo, pela comida e pela vida. Por isto, aquilo e aqueloutro.


Talvez estejamos mesmo na dita cuja. Mas talvez ainda não estejamos tão aflitos quanto se pensa. Afinal, quando ela aperta mesmo, deixamos de lado as palavras e procuramos mais os actos que nos sirvam para, pelo menos, minorar a condição declinada.


De qualquer modo, a crise, do Ocidente, entenda-se, pois é dessa que falamos, é um sinal destes tempos. Como se pode falar de crise noutros pontos do globo, se muitos tudo dariam para ter a crise que nós temos? Que para algumas bem significaria o paraíso!


O pulsar do globo começa a mudar. Vivemos num tempo de profunda transformação. Como nunca se verificou desde os tempos de Roma. Os centros de poder, decisão e influência começam a dar os primeiros passos de transferência.


As margens do Atlântico norte dão por si, paulatinamente, a perder poder. Que margens no Índico e no Pacífico ganham. E, a médio prazo, perspectiva-se que o Atlântico Sul também obtenha mais proveitos.


Enquanto isto sucede, o Ocidente vai sofrendo nestes dias com o sentimento do tapete escapar-lhe do chão. E pensa-se, e foca-se, apenas, nas questões nacionais, como se fossem estas, isoladas do enquadramento global, o problema. Mas não são. São questões transversais e comuns. E, nada de ilusões! Apesar do aparente e apelativo convite dos nacionalismos, com as suas respostas simples, sem sentido nem fundamento, esses argumentos foram a forma mais célere e desastrada para o infortúnio.


Por mais que se resista e/ou não apreciem estes tempos, os desafios são comuns aos blocos geográficos e culturais. E as respostas que se pretendem dar, isoladamente, a qualquer desafio, estão condenadas ao fracasso, porque uma nova realidade, multipolar, está a emergir como nunca se verificou antes.


É por isso que precisamos de um Copérnico na política europeia, que refira e nos faça sentir, a nós, europeus, que o globo já não gira à volta apenas e para o apêndice asiático que controlou o mundo durante séculos. Nem considerar, como o pensamento ancilosado da Guerra-Fria ainda dominante em alguns círculos europeus, que na outra margem está uma potência rival e sem problemas. O Tio Sam também está a sentir certas coisas a fugirem-lhe da esfera de controlo.


É preciso mudar de paradigma, para que não fiquemos à espera de Godot.


 


Carlos Manuel Castro (do blogue Palavra Aberta)

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