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João Távora

A memória, os sons e as imagens

 

É como uma arrepiante viagem no tempo, ouvir o som desta flauta do Paleolítico Superior descoberta em escavações no sudoeste da Alemanha e que vem comprovar que a música já era uma prática cultural à cerca de 35.000 anos.
Salvo as devidas distâncias, é uma sensação parecida quando escutamos esta gravação do Big Ben em 1890 com que nos brindou o Miguel Castelo Branco no seu blog, no final do ano passado. A este propósito, li em tempos numa crónica de Eurico de Barros no DN que vários registos sonoros de D. Carlos e D. Manuel II foram “inadvertidamente” destruídos na Emissora Nacional na voragem do PREC. Uma dor d’alma...
Sei bem como uma imagem vale mais do que mil palavras, mas neste caso não me refiro à semântica, mas aos sons em “carne e osso”. Estranho como o comum das pessoas, na ânsia de fixar vivências e memórias, afinal vulgarizaram o registo fotográfico e tão pouco valorizam a memória sonora, cujas técnicas hoje são tão acessíveis: possuo fotografias da minha infância, de férias e festas familiares, mas não tenho meio de recordar a voz do meu Avô, apesar de ela me soar sólida na minha memória. E que tamanhos afectos não carregam as vozes e timbres com que convivemos diariamente? Quantas vezes não lamentei não ter um gravador à mão para registar algumas expressões e onomatopeias dos meus filhotes quando eram pequenos? Não é o som um testemunho tão rico quanto a imagem?