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João Távora

Mundo Cruel

Quando vou deixar o mais pequenito à sala de aula não deixo de ficar apreensivo com a paisagem com que me deparo: pouco mais de uma dúzia de criancinhas, cambaleiam desordenadamente pelo espaço, “grosso modo” divididos em dois grupos, as meninas de volta da auxiliar que penteia ou compõe uma delas, e os rapazes que se desafiam, empurram, e fogem com os brinquedos uns dos outros.  São de facto dois “géneros” bem diferentes. A essa altura o meu filhote, (que também não é flor que se cheire), fixa-me de olhos húmidos e agarra-se ao meu pescoço com força numa vã esperança de não trocar de filme. 

Tudo isto serve para contar que ele tem um novo coleguinha, o Fletcher, um menino inglês que caiu de pára-quedas a meio da temporada e que não entende ou diz uma palavra de português. Os outros dizem poucas, mas ao que vejo faz alguma diferença: adivinha-se uma integração difícil, e contou-me a minha mulher que à hora da saída anda ele pela sala desesperado, a chamar “mummy”, “mummy”, disposto a saír com a primeira senhora sem bata que se dispuser a tira-lo dali.

A vida às vezes é cruel e começa cedo. Ontem, enquanto enfiava umas colheres de sopa na boca do miúdo, pedi-lhe encarecidamente para ser amigo do Flecher, como do Lucas de boa memória, em honra da Velha Aliança, da antiga tradição lusa. Claro que isto não são coisas que se encomendem e o apelo não foi compreendido: foi antes uma luta para comer a fruta, em ânsias de ir brincar. A vida custa a todos.