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João Távora

Sensibilidades e bom senso

 

 

Sem intenção de desvalorizar uma séria discussão sobre o confronto entre as tecnologias de informação e a vigilância electrónica com os limites da privacidade dos indivíduos, parece-me algo exagerado o alerta hoje emitido pela Comissão Nacional de Protecção de Dados (e quem não tem direito uma bela comissão?) a propósito do Dia Europeu da Protecção de Dados que é hoje. 

Por mim não vejo no que possa comprometer um pacato cidadão ser casualmente captado por uma câmara de vigilância num local em que tal se justifique como medida de prevenção ao crime. Também não reconheço que os dispositivos de pagamento electrónico de portagens e parques de estacionamento constituam por si qualquer perigo para o condutor: ele terá sempre a opção de utilizar dinheiro vivo, que como é sabido não deixa rasto, ou até pode escolher circular por estradas secundárias. A mesma regra se aplica aos cartões Multibanco ou de Crédito: no fundo quem se sentir ameaçado pelos estratos mensais na sua caixa do correio tem sempre a opção de fazer compras com dinheiro.

De resto quando abro a minha página da Amazon anoto com agrado que eles, graças a uma bem gerida base de dados, apresentam uma “montra” à minha medida e sabem do que eu gosto, o que por vezes me poupa uns bons minutos de pesquisa. 

Sobre a tão propalada questão dos scanners dos aeroportos: garantida a inexistência de significativos riscos para a saúde, acredito que eles constituem uma solução eficaz para um embarque mais cómodo e escorreito e um voo sem desagradáveis surpresas que pudessem ter sido evitadas.  Presumo que aqueles que reclamam constituir esta tecnologia "uma inadmissível invasão da privacidade do passageiro" devem viajar pouco ou nunca. Certamente nunca passaram o vexame de ser apalpados e despidos, percorrer intermináveis bichas com os sapatos, cintos e malas abertas na mão, seja em Londres, Frankfurt ou Lisboa. A mim, com este ar de terrorista façanhudo que me caracteriza, aconteceu-me já mais do que uma vez em Londres ser conduzido nesses preparos indignos para um gabinete fechado para assistir impotente a uma minuciosa análise do meu computador. Enfim, deixemo-nos de falsos puritanismos e venha de lá o bendito scanner que eu trabalho no alto duma torre das Amoreiras e vejo os aviões ameaçadores a cada minuto de frente para a minha janela. Finalmente, este parece-me mais um daqueles temas fracturantes, cuja infindável e aborrecida discussão será facilmente ultrapassada e resolvida pelos factos que como sempre superam os argumentos... com bom senso.