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João Távora

O Poder Popular

 

E numa prisão em si
Não saindo do que é seu
Foi esquecido
Adormeceu


À procura do amanhã
Andam homens inseguros
Erguem escadas
Partem muros


A nós os montes imundos
Dêem-nos os vales profundos
Sítios onde vê
Impossível ir


Ergam escadas
Partam Muros

 

Prisão em si – Chutos e Pontapés

 

 

A democratização do registo e consumo da música trouxe consigo um dos mais fabulosos fenómenos do século XX: a música pop. Com a telefonia e com os “singles”, despontaram as mais improváveis celebridades, da soberba quantidade surgiram extraordinárias pérolas poéticas e musicais de quatro minutos, marcando as gentes, modas e estações do nosso tempo: disto não se conformam as brigadas do “bom gosto”. Suspeito que quase todas as canções serão esquecidas, mas soube bem enquanto nos tocaram. Gosto muito da designação pop, que afinal não diminui o incontornável estilo: soa ao estalido duma bola de sabão, efémera e sedutoramente bela, preciosa para um, indiferente para outros. A música pop exige-nos desprendimento: o erro é pretendermos que as coisas que nos deslumbram sejam definitivas, universais, a música pop jamais será erudita – um equívoco só compreensível à luz da paixão do coleccionador de borboletas, catalogadas, amontoadas na vertigem da sua memória, das circunstâncias duma dança, dum namoro, ou dum perfume num final de tarde quente à beira-mar. Dos amores de Verão sobrou sempre uma cançoneta, um refrão ou um poema, pois que foram os poetas aqueles que mais se aproveitaram do prodígio. Porque as coisas mais sérias da vida sempre são ditas nos versos de canções pop. Que diria Mozart dum Jardim dos Polvos cantado por quatro escaravelhos de Liverpool, ou Bach duma Montanha de Açúcar, dum trovador canadiano, Verdi dos Gatos de Lloyd Weber, ou Handell do mestre Dylan? E onde encaixam nisto tudo os meus Génesis? Nada disso interessa muito afinal: a música pop é a maior invenção do século XX e definitivamente mudou a história da vida das pessoas. A minha também.