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João Távora

Do vagar

 

Já não é só a frenética cidade, mecânica, electrónica, esquizofrénica: atropelados pela vertigem virtual, mediática, escapa-nos a Essência. Caminhamos sem olhar pró caminho, guiados por códigos ergonómicos e imagens plastificadas que nos entram pelos olhos dentro numa cegueira de procura. Entorpecidos e cegos de Sentido. Quando foi a última vez que olhámos para a lua, que ouvimos um coração, escutámos o silêncio?
A realidade fala baixinho mas é coisa completa, sem mediação: só acessível num vagar táctil e silencioso que inquieta. Afinal há uma verdade que se oferece escondida na vontade, subjugada pelas pressas e aflições. Pressa que não tem o meu menino, quando guarda uma folha de árvore seca como se fosse o seu maior tesouro. Quando na espera à janela  (sempre a espera) se espanta, e com o dedito desafia a gota minúscula que desliza hesitante no vidro embaciado.
É só no vagar e no silêncio que ecoa o mistério, o espanto que é urgente, antítese da indiferença, do tempo que passa, envelhece e mata sem sabor nem sentido. O espanto dum demorado abraçar, aninhado numa entrega absoluta. O Amor, com odores familiares, sons secretos e gentis texturas, ardentes de vida. O regresso ao sereno mistério duma Catedral que brilha no silêncio da noite, em festa pelo reencontro, pela ressurreição. Como é urgente o vagar.

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