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João Távora

Da invisibilidade

(...) As tiranias contemporâneas privatizam o espaço público, promovem artificialmente elites, condicionam e manipulam a informação e a educação, dão ao dinheiro mais dinheiro e substituem a espontaneidade pelos apaniguados, pelas seitas e pelos grupos informais. (...) Em Portugal, custe a quantos se esmeram na arte do ludíbrio das fórmulas, vivemos desde há muito sob a conjugação do jugo da servidão e da anomia dissolvente. 

 

Miguel Castelo Branco in Combustões

 

 

Ferreira Fernandes na sua crónica de hoje no Diário de Notícias, refere o caso duma foto de 1936 que vem fazendo brado, de um operário de um estaleiro de Hamburgo que, no meio de uma multidão que fazia a saudação nazi, é o único de braços cruzados. Claro que a história não acaba bem e o homem foi devidamente punido pela ousadia.
Hoje, caro Ferreira Fernandes, alcançada a terra prometida das amplas liberdades não corremos o risco de sermos torturados ou mandados para um campo de concentração. Hoje, não bater a pala ao politicamente correcto ou não juntarmos trezentas mil pessoas (!?) no Terreiro do Paço, tem apenas como consequência uma literal invisibilidade. Uma tirania brutal e eficaz, fatalmente desagregadora.
Mas atrevo-me a deixar aqui uma questão pertinente e incómoda: que discernimento teríamos nós, um e outro, de que lado estaria cada um de nós, nas circunstâncias culturais e sociológicas da Alemanha do NSDAP em meados dos anos trinta? O passado é quase sempre fácil de julgar, ou não é?

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