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João Távora

Não digam que vêm daqui

 

 

Vou contar-vos um segredo: a par da exigente tarefa de educar (no sentido ortopédico do termo), do silêncio, da solidão e do tédio, todas elas experiências fundamentais na formação do carácter, brindar as cabecinhas das crianças com boas memórias é uma importantíssima tarefa a que os pais são chamados a empreender.
Acontece que uns quantos momentos felizes na infância podem a prazo salvar uma vida confrontada com o desespero. Umas memórias felizes constituem o mais valioso legado que podemos deixar aos nossos filhos. Falo de um património imaterial e afectivo como as festas em família, os passeios, as férias na praia ou no campo, uma ida ao circo ou ao cinema com os primos e amigos, falo de muita partilha de rituais e momentos marcantes, vividos em cumplicidade e sentido de pertença. Mais do que grandes artifícios ou destinos de emoções tão fáceis quanto descartáveis, essas recordações são uma laboriosa construção em que nos cabe o papel de engenheiros: preencher os rituais de significado, fazer que as relações com as pessoas, lugares e acontecimentos ganhem densidade e raízes nas suas existências. Esse é um trabalho de sapa em que os miúdos nos exigem coerência e verdade: eles são os primeiros a desacreditar na fancaria dos afectos e das fúteis ligações. Com as pessoas, com os lugares e com os acontecimentos. Nas suas memórias só guardarão o que seja fecundo de espanto e significado. Eles não sabem ainda, mas as suas marcas de felicidade poderão um dia ser a sua redenção.