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João Távora

Uma gaiola bem fora da caixa

Boa malha é o filme "A Gaiola Dourada" de Ruben Alves, história centrada num casal de emigrantes portugueses em Paris, a porteira Maria (Rita Blanco) e o pedreiro José (Joaquim de Almeida); uma descomplexada comédia que luminosamente desmonta e parodia os clichés duma tão generosa quanto incompreendida (por mera inveja ou snobeira) diáspora portuguesa em França. 
Sem quaisquer pretensões a dissertação cientifica sobre o tema, o filme não cede à tentação dos estereótipos políticos do ressabiamento e da luta de classes a que o assunto tão bem se presta. É deste modo que o filme colhe o desprezo da crítica regimental, na exacta proporção em que se revela um sucesso de bilheteira.Também porque nos mostra despudorada ternura às coisas da Pátria, com caracteres generosamente pincelados em tons alegres (mesmo que artificialmente queimados por efeito de um qualquer filtro de lentes “vintage”), perspectiva talvez mais acessível a quem sendo um de nós, nos vê de longe como a uma paradisíaca paisagem do Douro. Apesar da história e apesar da crise, pois então.

Independentemente de diferentes enquadramentos ou análises, os clichés são sempre irrefutáveis pedaços de verdade. E só nos deveria fazer rir a confusão dos “patrões” franceses de José entre Oliveira Salazar e o general Alcazar, personagem das aventuras de Tintim. Assim como a eterna confusão que a generalidade dos estrangeiros sempre fará entre o vocabulário castelhano e português.
Mas acontece que em duzentos anos largámos a religião para nos entornarmos em prantos aos pés dos psiquiatras e dos sociólogos. Ao contrário do crítico António Loja Neves da revista Actual do Expresso que deve perceber de cinema como pouca gente, eu espero daqui a dez anos Ruben Alves, filho de emigrantes, mantenha intacto o orgulho nesta sua bem-sucedida estreia dedicada aos seus pais, afinal de contas feita com alma e coração - quase sempre factor determinante para uma boa realização. Ao que se saiba, sustentável do ponto de vista económico, que é para além do mais uma lufada de ar fresco e oxigenado, com a qual as carpideiras profissionais não se dão bem nem se conformam. O nacional negativismo é pior do que uma gaiola, é uma sufocante caixa fechada, mas só lá vive quem quer.


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