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João Távora

Da amizade, verdadeira e finita

Longe de mim querer o ónus de contrariar os poetas, os idealistas e muito menos os adolescentes. Mas acontece que a verdade exige que de vez em quando lhe prestemos tributo, e é nesse sentido que vos posso garantir que a eterna amizade, tipo “encontramo-nos por aí daqui a vinte anos como se fosse no dia seguinte” é o mais das vezes um mito, talvez inofensivo, mas um rotundo mito. E acreditem no que vos digo, pois que sou um experiente especialista nisso de ter bons amigos, graças a Deus: sempre fui pessoa de grandes amizades, cada uma delas única e lealmente cultivada. De antigamente, lembro-me bem daqueles (sempre poucos é certo) que tanto me marcaram na dobra amarrotada da adolescência: das nossas cumplicidades construídas com a descoberta da vida, no erro e na virtude, das conversas intermináveis em que emergiam soluções definitivas para os problemas do Mundo e da existência, vislumbradas entre fumo e garrafas de cerveja; na interpretação dos nossos ídolos da música, da literatura e da história, como se apenas nós os entendêssemos verdadeiramente, numa egolatria partilhada e consentida. E as emoções vividas em estados limites de exaustão, nas noitadas; de arriscadas e arrepiantes façanhas e aventuras, estados d’alma que sempre convidam ao arrebatamento e ao exagero de juras de fidelidade siamesa, mais-que-eterna, quase sólida.
Mas depois sem pré-aviso, os caminhos desviam-se de forma mais ou menos subtil e a vida separa-nos com uma intrigante naturalidade. Vêm os amores, os casamentos, os filhos e novas famílias. Chegam trabalhos mil, conquistas, falhanços e frustrações. Sim, são possíveis amizades para toda a vida (sei que o meu pai teve uma assim) mas hoje sou obrigado a admitir que mesmo terminadas não deixaram de ter sido genuínas. Deixaram de ser “praticadas”, enterradas que foram após um fortuito reencontro, quem sabe embaraçador, em circunstâncias inesperadas: acontece que vinte ou quarenta anos depois já não somos as mesmas pessoas, o tempo e as circunstâncias fizeram de nós pouco menos do que estranhos, quando já só nos queríamos preservados e incorrompidos nas respectivas memórias. Cúmplices num sentimento incómodo de estranha incompatibilidade, que o bom e velho amigo nunca irá cobrar esta primeira e última traição: "amigo não empata amigo" (frase detestável, esta), a vida continua imparável presenteando-nos cruamente com novos bons amigos, poucos, que isso é da sua natureza. 

 

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