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João Távora

Ladainha


Paulo Pinto de Mascarenhas discorda “da ladainha” de uma certa direita que não rejubila   com as comemorações do 25 de Abril, e afirma que essa direita nunca deveria ter permitido que a esquerda se apropriasse do.

Eu, que enfiei esse barrete, também discordo do Paulo, pois sou dos que vivem neste dia um sentimento ambíguo, algo melancólico até. Se por um lado lhe reconheço o significado pela conquista do mais sagrado valor civilizacional, o da liberdade de expressão, o 25 de Abril traz-me inevitavelmente à memória os sequentes meses de inglório combate por essa liberdade que nos ia sendo usurpada pela esquerda totalitária que tomara conta do poder então. E o Paulo que se desengane: não foi sem um duro combate que “essa direita” foi literalmente atirada para fora do processo politico de “democratização”. Eu estive na rua e fui humilhado. O meu pai, cedo proscrito pelos governos revolucionários, para além da intervenção escrita e partidária, nunca falhou a rua. Eu por mim, militei na Juventude Democrata Cristã de Sanches Osório (extinta no 11 de Março), colei muitos cartazes e estive sempre onde era necessário em defesa dos valores democráticos ocidentais. Eu e os meus camaradas fomos crescentemente achincalhados até chegar o 11 de Março, quando, confesso,  um certo terror se apoderou de nós: qualquer coisa que mexesse à direita do PS era acusada de fascista, e chegámos a temer pelas nossas vidas.

Caro Paulo Pinto de Mascarenhas: como vê não é por uma questão estética ou de vontade que uma “certa direita” não desce alegremente a Avenida da Liberdade todos os anos. É porque logo a partir do dia 26 de Abril ela foi, metódica e antidemocraticamente, atirada borda fora do sistema, até chegar o dia 25 de Novembro, quando a liberdade e a democracia foram restauradas. Trata-se, caro Paulo, de uma questão tão emocional quanto racional, aquela que me afasta de quantos rejubilam com o 25 de Abril e para quem o PREC se tratou de inesquecíveis tempos de pândega, uma extravagância desculpável pelos ideais que reclamavam para si.  É que eu e muitos dos meus companheiros e amigos, fomos nesses dias os bombos da festa. 

Foi necessário muito fair play para essa indulgente direita se ter conformado com os excessos dessa amnistiada esquerda que hoje pontifica e é promovida no panorama politico e social português. Personagens às quais, graças a Deus, eu não necessito prestar vassalagem ou fazer cara alegre neste dia do ano ou noutro qualquer.

Fique o Paulo a saber que eu também trauteei as Cantigas e Maio até se me amargarem, sufocadas na garganta. O 25 de Abril que muitos festejam, ironicamente, acabou por pôr em causa a nossa liberdade e às tantas nossa sobrevivência. Só isso.

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