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João Távora

O busílis da questão

Quando pelo final dos anos setenta a qualidade da gravação e de fabrico de discos atingiu o seu auge, um dos maiores desafios dos fabricantes de gira-discos high end era a erradicação de qualquer interferência na leitura do disco, por exemplo com com cabeças de bobine móvel extremamente sensíveis, do atrito provocado pelos elementos mecânicos da máquina.

É nesse sentido que a tão celebrada invenção do CD surge ironicamente aos ouvidos exigentes como a solução que reúne o pior dos dois mundos, seja digital ou analógico: deste último herda a o inevitável atrito da rotação do disco; do digital recebe a sua sempre limitada capacidade de abarcar o infindável espectro de frequências sonoras, desmontadas "em zeros e uns", que resulta em informação deficitária. O busílis encontra solução quase perfeita por estes dias na completa desmaterialização do registo sonoro, através de soluções em (muito) alta resolução (por exemplo em formato FLAC ou ALAC - Apple Lossless Audio Codec) por streaming ou armazenados em suportes electrónicos livres de elementos mecânicos como os ipods ou até um simples cartão de memória, claro, reproduzidos por um competente e maciço sistema de hi-fi. Essa é uma revolução difícil de integrar por quem como eu tanto gosta de “manusear” as suas obras musicais predilectas, apreciar a beleza gráfica da sua capa e folhear a informação complementar enquanto vinte minutos de sólido e degradável som total se vão desenrolando a 33.3 rotações no velho gira-discos para ecoarem com naturalidade numas inevitavelmente pesadas e grandes colunas.