Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

João Távora

Um tributo à Bola de Berlim

Foi uma genuína homenagem ao cada vez mais raro Bolo de Arroz autêntico que o Padre Tolentino de Mendonça consagrou em tempos numa numa sua crónica no Expresso, que inspirou estas linhas que hoje dedico à tão portuguesa “Bola”, que como veremos "de Berlim" tem muito pouco. E que me perdoe o Duarte Calvão esta tão simplória mas franca incursão aos seus territórios da culinária e gastronomia, no caso a despretensiosa pastelaria portuguesa.
Se a Bola de Berlim é há muito um inegável megassucesso universal, um precoce sinal da globalização, acontece que as versões recriadas em cada País têm tanto em comum quanto o seu modo de pronunciar: de Berliner Pfannkuchen ou Berliner Ballen na Alemanha onde são recheadas com compota, ao Sonho no Brasil com “doce de leite”, passando pelo Sufganiyah de Israel, ou  Borlas de Fraile como são conhecidas na Argentina e no Uruguai, ao Doughnut anglo-saxónico cujo recheio é, como bem sabemos, um buraco no meio (são danados para o negócio os bifes). Por exemplo em Essen  na Renânia do Norte-Vestfália, chamam-lhes Kreppel, e apesar de serem em argola, eu vi-as serem vendidas na rua quase do tamanho dum Pão Saloio (são uns bárbaros estes germanos). No fundo estes bolos pelo mundo fora, apenas partilham do facto de serem redondos, fritos e feitos com  farinha doce com fermento, o que convenhamos não é muito. Mesmo na pastelaria portuguesa, ou de Lisboa onde as Bolas de Berlim "com ou sem creme de pasteleiro” são mais populares, o seu sabor difere completamente de fabricante para fabricante.  
Se é certo que na infância uma oleosa Bola de Berlim de quinze tostões comprada na padaria em frente à escola numa manhã gelada de Inverno nos fazia as delicias - até porque o critério preço/tamanho era decisivo - um parecido fenómeno sucede ainda hoje ao fim de três horas de jejum e actividade física ao ar quente e oxigenado de uma praia, com o apetite ao rubro. Também recordo as Bolas assim quentinhas que se vendiam em Alcântara noite louca adentro onde fazíamos bicha de madrugada para serenarmos os ânimos e aconchegar o estômago mal tratado. E se a meio de uma viagem formos assaltados por um bichinho no estômago, também é verdade que numa estação de serviço um Doughnut até marcha e é bem capaz de nos poupar uma má surpresa.  
Mas acontece que há uma receita de Bola de Berlim que em mim resulta um pouco como a célebre Madalena com chá de Proust em ”Do Lado de Swann”. Distingue-se pela sua uma massa leve, fofa e amarelada, exclusivamente pelas propriedades do ovo, e com um fino sabor amargo-doce no final. Esta Bola de Berlim ideal, que vos garanto define um bom pasteleiro, dispensa o creme: o açúcar cristalizado que adere à suave camada exterior, fina e bronzeada é recheio que baste. Ainda a encontramos, por exemplo, na Pastelaria Aloma em Campo d’ Ourique e na Garrett no Estoril, locais onde garantidamente vale a pena peregrinar para fruir uma autêntica experiência divinal, metafísica. 

 

Foto: Wikipedia