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João Távora


Segunda-feira, 09.04.18

Uma espiral de loucura

Como se tem visto nos últimos dias Bruno de Carvalho entrou numa espiral neurótica de total descontrolo emocional, e parece querer afundar o Sporting Clube de Portugal consigo para o inferno em que se enredou. O problema está em saber como se lida com um homem tresloucado, com muito poder destrutivo, e como se poderão minimizar os danos deste tumulto até que se vislumbre uma solução, que só pode ser encontrada através da convocação de eleições e numa nova liderança do clube. 

Também acho estranho como não haja à volta do presidente quem o confronte com a realidade. A doideira já se vem revelando há algum tempo, pelo menos desde a inaudita convocação da última Assembleia Geral. O amor ao clube, ou o brio profissional, deveriam ser razões mais que suficientes para a demissão dos actuais Corpos Sociais. E o que é que nos tem para dizer o director de comunicação Nuno Saraiva sobre catástrofe comunicacional, um verdadeiro caso de estudo, que se vem revelando o seu exercício de funções?
Resta-me aqui elogiar Jorge Jesus que vem demonstrando um enorme sentido institucional, afirmando-se neste momento como uma peça fundamental de bom senso e equilíbrio no meio de tanto desconchavo. Quem diria.

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por João Távora às 11:11

Quarta-feira, 04.04.18

Ide roubar p'rá estrada

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Aqui há uns anos valentes um fulano chamado Manuel de Sousa copiou quase integralmente um livro do meu pai, o “Dicionário das Famílias Portuguesas", que com um nome sugestivo fez publicar aos milhares numa "elegante" edição cartonada para ser vendido com o Correio da Manhã. Por isso foi posteriormente condenado à revelia em tribunal, fruto de um processo que lhe foi imposto pela minha família. O biltre, que provavelmente fez outras intrujices, permanece até hoje a monte, incontactável, fui informado há dias oficialmente. Talvez seja o mínimo dos castigos que o malandro se veja impedido de andar às claras e de cabeça erguida na sua própria terra. Tudo isto só para dizer que considero o plágio, tirar proveito abusivo do labor alheio, um dos mais velhacos crimes que conheço, e que o realizador João Botelho deve muito mais que um pedido de desculpas a Deana Barroqueiro, autora plagiada pelo realizador no filme Peregrinação. E já agora, perceber a posição que assumem as entidades publicas ou privadas que subsidiaram esta indignidade.

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por João Távora às 16:18

Sexta-feira, 30.03.18

Paixão

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Salta-nos aos olhos a incapacidade da sociedade do bem-estar por estes dias em acompanhar com um mínimo de profundidade a densa questão filosófica que emana da inquietante Páscoa de Jesus Cristo. Tudo se resolve: com uma escapadela turística refugiamo-nos de qualquer convite ao questionamento da nossa essência e razão de existir, à inquietação, ao espanto. A geração mais bem preparada de sempre mal disfarça a inaptidão de questionar a existência para além do superficial e do plausível – uma hipnótica série de televisão resolve facilmente o tédio de tanto bem-estar. De resto, como referiu a estrela pop Stephen Hawking, "a Filosofia está morta", hoje não é mais do que um caricato e inútil capricho de una quantos excêntricos (e não foi sempre assim?). É um paradoxo: a Salvação vem perdendo procura na medida em que nos vamos dissipando na precariedade do entretenimento, infantilizados no apoucamento da nossa humanidade.
Hoje celebra-se a vitória do cinismo, tarda a ressurreição da esperança – até Domingo.

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por João Távora às 16:02

Quarta-feira, 28.03.18

Fazer História em cima da memória

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Já não é a primeira vez que o deputado socialista Ascenso Simões, um político cujas opiniões invulgarmente livres em tempos ganhavam letra de forma neste jornal, vem à praça pública para, ao mesmo tempo, piscar timidamente o olho à Monarquia e deplorar os monárquicos. Foi esta a difícil pirueta que Ascenso Simões ensaiou no Público de ontem, na sua “Carta Aberta a Dom Duarte Pio”. Curioso como articulista vê monárquicos atávicos e passadistas mas a sua oportuna miopia não lhe dá a conhecer republicanos de um jacobinismo fossilizado na sua própria casa. Da Carta, porém, aproveitam-se ideias interessantes sobre o papel da Família Real Portuguesa e do nosso Príncipe na “república” que temos, a quem cumpre, nas suas palavras “continuar a fazer História em cima da memória”. Essa ideia é aliás defendida por muitos de nós, os mais pragmáticos no movimento monárquico, para quem importa, dada a agenda política tão avessa à questão do regime, afirmar o Senhor Dom Duarte, indisputado Chefe da Casa Real Portuguesa, como “rei dos portugueses”, epíteto cuja aceitação geral diria muito mais de nós, enquanto povo, do que do Senhor Dom Duarte.

Ninguém ignora a discreta mas determinada e persistente intervenção do Duque de Bragança em vários aspectos da nossa vida colectiva. O Senhor Dom Duarte tem dedicado a sua vida, uma vida cheia, ao serviço, à representação nacional, calcorreando o mundo português de lés-a-lés, percorrendo a expensas suas o país inteiro, do mais cosmopolita centro urbano ao mais remoto município. É um homem que vence distâncias, rumando a latitudes longínquas, a paragens onde nenhum político português pôs os pés, para poder estar com as comunidades que falam português ou se sentem parte integrante do nosso mundo lusíada. Fá-lo por sentido de dever, sem esperar qualquer reconhecimento público ou atenção mediática. O Senhor Dom Duarte faz, sempre fez, o que sente ser seu dever, alheio a quaisquer calculismos conjunturais. Não deveríamos nós, portugueses, sempre lestos na crítica, reconhecer a sorte de termos alguém que tão livremente honra a nossa História e cimenta as relações ancestrais entre pessoas de todos os continentes? O Senhor Dom Duarte é rei dos portugueses em razão do seu serviço, por mérito próprio. Poderia ser Rei de Portugal se, nós, portugueses, o quiséssemos. Sê-lo-ia, por virtude nossa.

Como em tempos disse a Ascenso Simões, as Reais Associações em que assenta a Causa Real são grupos heterogéneos, política e socialmente transversais que espelham a diversidade de que é feito o nosso País. O movimento monárquico não se dirige a nenhuma facção ideológica, classe social ou elite cultural. Dirige-se a todos os portugueses que se interessem pelos destinos de Portugal e entendam que só pode “fazer-se história em cima da memória”.

 

Publicado originalmente aqui

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por João Távora às 12:58

Sábado, 24.03.18

A crise no Facebook

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A campanha eleitoral de Obama em 2012, para ganhar a Mitt Romney, utilizou os dados disponíveis pelo FB para identificar 15 milhões de eleitores susceptíveis de votar no candidato. Na altura, bem nos lembramos das loas tecidas às democráticas redes sociais pelos mesmos que hoje rasgam as vestes indignados com o "lapso" ocorrido com os metadados que “permitiram a manipulação” dos eleitores a favor de Trump com anúncios "direccionados". Dá para perceber a razão da crise?

A vantagem da utilização do Facebook em termos comunicacionais é permitir-nos com recursos financeiros razoáveis direccionar a comunicação a um público-alvo determinado, do ponto de vista etário, geográfico e para um certo perfil de interesses. Por exemplo, em tese, o seu algoritmo permite à Juventude Monárquica de Lisboa direccionar as suas publicações para um público “amigável” e circunscreve-las à região da Grande Lisboa e um grupo etário definido com uma margem de erro aceitável. Considerar isto um problema ou uma a ameaça à privacidade das pessoas é uma enorme saloiice, uma paranóia quase infantil.
É evidente que quanto maior forem as empresas mais elas deverão ser escrutinadas, e o Facebook deve ser obrigado a um especial cuidado com a informação que recolhe dos seus utilizadores e a sua utilização deve ser devidamente regulada. Em Portugal, por exemplo, a publicidade nas redes socias e nos media em geral é proibida a partir de 90 dias das eleições.  

A quem serve o alarmismo criado à volta da questão? Pela minha parte não vejo qualquer problema com o tratamento do meu rasto na internet para que eu aceda com mais facilidade a determinados conteúdos ou produtos. Dá ideia que por vontade desta oligarquia puritana voltávamos aos anos 70, em que a propaganda eleitoral se cingia aos dois canais de televisão oficiais e umas românticas noitadas a colar cartazes nas paredes. A quem interessa um poder central a definir o que são notícias verdadeiras ou falsas?

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por João Távora às 18:26

Sexta-feira, 23.03.18

Evocação de D. Luiz de Lancastre e Távora

Para os meus amigos eventualmente interessados e que não puderam estar presentes, aqui partilho 4 vídeos que compõe o registo da comovente homenagem feita ao meu Pai D. Luiz Gonzaga de Lancastre e Távora no passado dia 21 de Fevereiro de 2018, organizada pelo Instituto Português de Heráldica por ocasião dos 25 anos sobre sua morte.

 

 

 

 

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por João Távora às 11:41

Sexta-feira, 23.03.18

A grande manobra

Se a acção de propaganda do governo agendada para amanhã, que vai por os ministros de enxada na mão a limpar as matas, fosse realizada há quarenta anos, quando só havia dois canais de televisão que como a maior parte dos restantes órgão de comunicação social estavam sob o controlo do Estado, o seu sucesso era garantido: assistiríamos embevecidos a uma comovedora unidade nacional garantida em torno do pequeno ecrã, das rádios e dos jornais que dantes eram patrióticos e agora se chamam "de referência". O que nos vale é a modernidade dos nossos tempos com a diversidade de canais de televisão e rádio e jornais privados e a nossa RTP tão independente, tudo factores que garantirão a indisponibilidade de todos estes meios e os seus jornalistas profissionais para embarcarem numa mera acção de publicidade ao governo de António Costa.

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por João Távora às 10:13

Segunda-feira, 19.03.18

Elevar-se para olhar mais longe - uma reflexão sobre a política de comunicação do Sporting

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Que a presidência de Bruno Carvalho tem reforçado a militância dos adeptos do Sporting isso parece-me um dado que confirmado pelas assistências aos jogos nos últimos anos. Assim como o ruído das claques que durante a última década acedeu às redes de “media social”, que tomou como um prolongamento dos rituais de apoio ao clube nas bancadas – os sportinguistas “fanáticos” andam mais motivados por estes dias, e isso é positivo, digo-o sem qualquer desdém: são eles (nós) que preenchem os lugares no estádio, pagam as quotas, contribuem para a Missão Pavilhão ou outra, compram merchandising para oferecer aos sobrinhos ou afilhados, e alguns ainda compram o Jornal do Sporting no quiosque e, imaginem, participam na vida associativa do clube.

O problema quanto a mim é que o Sporting não é sustentável só com este núcleo duro, chamemos-lhe assim, tem de se elevar para olhar mais longe e reconquistar as margens e periferias, para ser uma marca atractiva num universo mais lato. Acontece que, tão importante quanto os militantes, é o universo de simpatizantes mais ou menos desprendido que não assina canais pagos de desporto e só vão ao futebol muito ocasionalmente, mas que socialmente funciona como que um “farol leonino”: na família ou no trabalho assume a simpatia pelo seu clube mas sem grande compromisso, seja porque o desporto tem um lugar secundário na sua hierarquia de interesses, ou porque não está para se chatear com mais polémicas, intrigas e aborrecimento… e porque não tem grandes expectativas que o clube lhe devolva um pouco de entusiasmo que despendeu algures no passado sendo campeão. É com este última grupo que eu me preocupo mais: para além dos meus filhos eu “eduquei” os meus muitos sobrinhos para serem resilientes sportinguistas. Levei-os ocasionalmente ao futebol, ofereci-lhes o Cachecol que hoje ainda guardam, mas com os anos e anos seguidos de frustrações foram-se desligando. Aqui chegados, queixam-se que o Sporting, não se sagrando campeão, praticamente só dá nas vistas com as polémicas estúpidas que saem nas parangonas dos jornais e que são peroradas nas TVs.
É por tudo isto que estou convicto que o Sporting para sobreviver a longo prazo tem de aumentar e atracção dos simpatizantes mais ou menos desprendidos. É evidente que a conquista do título é a fórmula mais eficaz para tal desiderato. Mas há outras, como por exemplo uma comunicação amigável que os seja capaz de cativar, que não esteja fixada nos escândalos e guerrilhas mais ou menos artificiais que os polemistas, numa violência inaudita berram insanamente na televisão. O futebol não pode expulsar da sua órbitra as pessoas razoáveis, que não o vivem como se essa actividade fora uma guerra sem quartel em que os grunhos são preponderantes.

Desconfio que por estes dias a forte militância sportinguista esteja a mascarar este divórcio que se adivinha crescente e exponencial das pessoas normais com o futebol. Na minha modesta opinião, o Sporting tem de, urgentemente, elevar-se da lama comunicacional em que é tentado a chafurdar e acautelar uma política que não afaste definitivamente da sua órbita os simples simpatizantes. Ou começar a pensar nisso, pelo menos.

 

Publicado originalmente aqui

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por João Távora às 17:22

Sexta-feira, 16.03.18

Populismo

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Ontem no Parlamento, António Costa, numa atitude de desbragado populismo à boa maneira de Vasco Gonçalves, desafiou os deputados a juntarem-se ao povo e oferecerem um dia de limpeza das matas com o Presidente da República "numa grande acção de limpeza da floresta nos próximos dias 24 e 25 de Março". 

Está criada a ideia que a limpeza das matas é uma missão heróica que será um assunto encerrado numa data determinada pelo governo. Isso é mera propaganda para entreter os pobres de espírito. Acontece que as matas crescem continuamente e a sua limpeza terá de ser uma rotina. O esforço não pode ser hercúleo, tem de ser sustentável. Certo é que para já resta-nos rezar a São Pedro por um Verão ameno, que este ano as condições meteorológicas sejam clementes para com o interior abandonado e um governo de incompetentes. 

 

Imagem daqui

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por João Távora às 10:45

Segunda-feira, 12.03.18

Uma missão

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A Assembleia Geral da Real Associação de Lisboa reuniu no Sábado tendo sido eleita a lista A, “Lisboa Realista”. O desafio que eu assumo na liderança desta nova equipa directiva é consolidar uma RAL activa e sustentável, reforçando a intervenção política desta que queremos a maior organização monárquica nacional.

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por João Távora às 10:13

Segunda-feira, 05.03.18

A "verdade factual" de Pacheco Pereira

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Tenho algumas dúvidas quanto à objectividade das conclusões de Pacheco Pereira neste artigo quando reflecte sobre o triste encerramento e decadência das livrarias e as suas causas. Há números que indiquem a redução das vendas de livros e da actividade editorial? Parece-me que não: a facilidade que as novas tecnologias proporciona para a produção e distribuição de obras especializadas para públicos muito específicos constitui no meu entender um grande avanço. Na minha casa, em que se consomem bastantes livros, estamos a adquiri-los maioritariamente online, seja pela Amazon ou pela Wook, por exemplo. Recentemente, fiz a pesquisa de um livro antigo no Google, e fui parar a um site de um alfarrabista, onde o adquiri - não precisei de me deslocar à loja (que nem sei se existe). Pacheco Pereira dá-se ao direito de "achar coisas" nos jornais e televisão, e eu atrevo-me ao mesmo aqui neste modesto blog: a minha intuição leva-me a diferentes conclusões das suas. Pela minha experiência de vida, hoje como ontem, tenho a viva impressão que resulta impossível incutir sólidos hábitos de leitura (tenho 4 filhos e sou um de 5 irmãos) a quem não tem apetência para tal - e não é por falta de dedicação à "causa". Julgo que o problema do Pacheco Pereira está no desconforto causado pela desilusão com a ausência de efeitos na erudição das massas por via da alta taxa de escolarização. Acontece que o sonho de democratizar a erudição resultou numa falácia porque ela provém mais de dons que nascem com as pessoas que por outros factores, e o ensino democrático pouco mais poderá fazer do que mitigar os danos da boçalidade natural das gentes. É verdade que nunca como hoje a alienação pelo entretenimento esteve tão acessível, ou mesmo invasiva, principalmente através dos videojogos e das redes sociais. Mas apesar de tudo tendo a acreditar que nunca como hoje se leu tanto (em termos meramente quantitativos, evidentemente) justamente por causa do acesso extremamente facilitado aos mais variados conteúdos na Internet - que também os há de qualidade, sejamos justos. Melhor que nada. Quanto à valorização do “conhecimento, do silêncio, do tempo lento, da leitura e da 'verdade factual'” (o que será isso de 'verdade factual' afinal?) desconfio que será sempre apanágio de uma pequena minoria de privilegiados por Deus (ou pela natureza). Ontem como hoje ou amanhã, desfrutar de Schubert ou Dostoievski será privilégio de muito poucos. E já todos percebemos que os escritos de Pacheco Pereira por este caminho estão longe de se tornarem clássicos. Escusa é de se armar aos cucos, que não lhe fica bem.

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por João Távora às 19:38

Quinta-feira, 22.02.18

Homenagem ao meu Pai, D. Luís de Lancastre e Távora

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Aqui publico um testemunho pessoal sobre o meu Pai, D. Luiz Gonzaga de Lancastre e Távora, Marquês de Abrantes, partilhado por ocasião da sessão evocativa dos 25 anos sobre sua morte organizada pelo Instituto Português de Heráldica no dia 21 de Fevereiro de 2018. Esta sessão, que será em breve disponibilizada em video e numa separata da revista Armas e Troféus, contou com as substanciais intervenções do presidente honorário do IPH Dr. Pedro Sameiro que apresentou um panorama da obra do homenageado, da Prof. Doutora Maria do Rosário Morujão sobre a sua dimensão sigilográfica, e finalmente do Dr. Carlos Bobone que recordou o homenageado numa dimensão mais pessoal. (Ver reportagem fotográfica aqui e registo vídeo aqui)

----XXX----

Minhas Senhoras e meus Senhores:

 

Antes de mais quero agradecer ao Instituto Português de Heráldica na pessoa do seu presidente o Dr. Miguel Metelo Seixas, este tributo ao meu Pai, D. Luís de Lancastre e Távora, XI Marquês de Abrantes, que com grande entusiasmo acolhemos desde a primeira hora, e que constitui uma muito justa iniciativa de rememoração da sua vida e obra, agora que se completam 25 anos da sua partida e de nossa saudade. Gostava de realçar a grande emoção e gosto especial que tive a elaborar as linhas que aqui vou partilhar, que são uma sentida homenagem que aquando da sua morte não pude prestar.

De resto, relembrar as pessoas que amamos ou admiramos constitui um reconfortante perpetuar da sua companhia, e nesse sentido, nós todos fomos privilegiados com o seu legado bibliográfico, cujas páginas constituem a cada momento uma oportunidade de reencontro, que tem o poder de nos devolver uma calorosa proximidade com o seu autor.

Sobre o seu legado científico e historiográfico, outros falarão melhor que eu, mas no entanto gostaria de relevar um dado importante que o meu tio Duarte de Castro, cunhado e amigo de juventude do meu Pai, referiu um certo dia não muito distante: poucos terão sido os marqueses de Abrantes seus antepassados a prestigiar de forma tão efectiva e brilhante esta Casa que com tanto orgulho e denodo o meu Pai representava.

De facto, apesar de ter vivido toda a sua vida adulta uma precaridade financeira que tanto o amargurava, o meu Pai nunca deixou de ter presente uma forte noção do serviço que o seu estatuto comportava, tendo para isso empreendido uma vida de trabalho e investigação que ousou dispor ao serviço dos outros, tornando-se uma incontornável autoridade em genealogia e heráldica que se reflecte na larga produção bibliográfica ainda hoje reconhecida e respeitada.

Permitam-me agora revelar alguns aspectos biográficos do meu Pai, porventura não tão conhecidos:

Nasceu no dia 8 de Fevereiro de 1937, num dia de Carnaval. Foi filho terceiro e primogénito varão de D. José Maria da Piedade de Lancastre e Távora, e D. Maria Emília Casal Ribeiro Ulrich, que viviam então no 2.° andar de um prédio na Calçada da Estrela que ocupavam desde o seu regresso do Luxemburgo em 1935 aproveitando a paz social permitida pelo fim da 1ª república.

Foi baptizado na Igreja de Santos o Velho, tendo sido seus Padrinhos D. Pedro Maria da Piedade de Lencastre e Távora, III Conde de Alvor, irmão mais novo do seu pai e meu Avô José, e Nossa Senhora da Piedade como era tradição ancestral na família, tendo tocado como Madrinha D. Maria Cecília Van Zeller de Castro Pereira.

No meu Pai foi investida uma educação esmerada: para tal, foi educado em casa por uma "Mademoiselle" até aos 9 anos, a Sra. D. Maria Lucília Moniz, uma velha senhora dos Açores contratada para a sua instrução e com quem confessou ter criado uma forte ligação.

Apesar de tudo, nunca foi brilhante nos estudos, característica que segundo o próprio escreveu “entristecia os seus pais” e era realçada pelo facto das suas irmãs mais velhas serem brilhantes alunas.

A justificação dada pelo meu Pai, no projecto de memórias que infelizmente deixou a meio e que me permito utilizar para estas notas, para este insucesso terá contribuído o facto de, em 11 anos lectivos, da Instrução Primária ao Liceu, ter mudado, nada mais nada menos, do que 13 vezes de estabelecimento de ensino.

Tinha boas notas a português, francês, inglês e alemão, literatura e história, e ainda citando as suas palavras, “o pior defeito como estudante, era apenas aplicar-se nas cadeiras de Letras”, que eram as que verdadeiramente lhe interessavam. Entre as disciplinas de Ciências, só no desenho conseguia manter uma média elevada.
De facto, um traço pouco conhecido do meu pai era o jeito que tinha para desenho – lembro-me bem dos retratos,  brasões, fardas militares, condecorações e aviões da II Guerra Mundial entre outros “bonecos” que desenhava com desenvoltura e precisão, com a mesma caneta de tinta permanente com que compunha os seus manuscritos, numa letra muito bem traçada em folhas de papel almaço quadriculadas. A esse facto não seria alheio o gosto que nutria desde cedo por Banda Desenhada.

Foi entre os 3 ou 4 anos que se mudou para a Travessa do Patrocínio n.º 15 na Estrela, a casa que os meus irmãos e eu tanto frequentámos na nossa infância e nos deixou tão gratas recordações.

Durante o Verão passava um mês de férias na Praia das Maçãs, e aos 11 anos, pouco mais ou menos, passou um Verão em Santo Amaro de Oeiras. Foi a partir dos doze que, com a família, passou a ir para a casa Burnay na Ericeira, que meus avós mantiveram alugada na época estival até 1962.

Tendo desistido de estudar aos vinte anos, empregou-se na Cidla, com um ordenado de 800 escudos por mês, máximo que então ganhava um aspirante a 3.° escriturário.

Casou-se a 10 de Outubro de 1959 com 22 anos com Maria João de Carvalho Gomes de Castro (a minha mãe aqui presente), tendo sido seus padrinhos António Lavradio e o seu Tio José Frederico Ulrich; as madrinhas da minha mãe foram a minha bisavó Valentina, Condessa de Castro, e a Senhora Infanta D. Maria Adelaide de Bragança. O copo d´água foi servido na casa dos seus sogros, no 232 da Avenida da Liberdade, de boa memória para quem o frequentou.

O meu Pai tinha alguns gostos pessoais curiosos que cometo a inconfidência de aqui partilhar: com um sentido de humor apurado, se possível não perdia um desenho animado na televisão, fosse do Bip Bip, Bugs Bunny, Flinstones ou outra série, não sendo raro encontrá-lo a rir a bandeiras despregadas. Era um fervoroso amante de ficção científica e de contos policiais que consumia com grande voracidade – na verdade os pequenos livros da colecção Argonauta e Vampiro espalhavam-se pela nossa casa aos magotes. Como pessoa de bom gosto que era, foi um Sportinguista sofredor, e apreciava ver um jogo de futebol da sua equipa desde que fosse no sofá. A sua maior fraqueza sempre terá sido a gulodice: não resistia a doces, principalmente de ovos, e a outras sofisticadas iguarias que o próprio se dedicava a confeccionar para a família com muita arte e engenho, e que depois se deliciava a degustar com não menos dedicação. Este facto, aliado à sua grande estatura, faziam do meu Pai o homem proeminente que todos conhecemos, e doente do coração como era, o desfecho da sua morte precoce para muitos não foi surpresa.

Apesar de ser um tradicionalista convicto, foi precursor duma paternidade afectivamente muito próxima e empenhada: não se eximia da expressão dos seus afectos e de brincadeiras com os filhos, e estou convencido que com isso nos deixou a todos uma marca indelével. Apesar das suas contradições e das suas emoções à flor da pele, com que por vezes nos assustava, prevaleceu na minha memória um Pai carinhoso e muito amigo. Que não se poupou a nos incutir o gosto pela boa música, pelo fascínio de uma boa história e por um bom livro – lembro-me com saudade, numa idade precoce, de ele nos ir ler ao quarto, “As Minas de Salomão” traduzido por Eça de Queiroz e o Principezinho de Antoine de Saint-Exupéry.

Da sua música lembrar-me-ei sempre dele quando ouça a Abertura de 1812 de Tchaikovsky, Jaques Brell que adorava quase toda o reportório e as canções mais conhecidas de Peter, Paul and Mary, a sua maior ousadia em termos de música Pop que deplorava em geral.

Dois filmes que sempre me lembrarão o meu Pai são o galardoado Lawrence da Arábia e o Breakfast at Tiffany's baseado numa novela de Truman Capote com a belíssima Audrey Hepburn no seu auge. Com o meu pai passei também longas e entretidas horas a jogar Xadrez que jamais esquecerei.

Uma nota final sobre a descoberta que recentemente fiz no livro “Nas teias de Salazar” – uma biografia de Dom Duarte Nuno de Bragança da autoria de Paulo Drumond Braga: nele, na página 282, menciona-se um desentendimento entre o meu Pai e o Duque de Bragança em 1966, quando o primeiro, descontente com a nomeação de João Ameal para dirigir as operações da transladação do Rei Dom Miguel, se atreveu a escrever para S. A. R. uma carta em que o designava a si nesse papel e que Dom Duarte Nuno se recusou assinar com manifesto desagrado. Este caso parece-me curioso, pois na minha interpretação, remete para o voluntarismo do meu Pai, revelador de alguma ingenuidade natural da sua juventude, com o propósito de assumir um protagonismo que julgava legítimo, numa velha causa historicamente acarinhada pela Casa de Abrantes – a do Rei Dom Miguel I, personalidade histórica a que aliás dedicara já uma série de artigos publicados na revista Debate, dois anos antes deste mal-entendido com o Chefe da Casa Real.

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Espero que estas pinceladas, algumas delas certamente subjectivas, tenham contribuído para definir melhor o perfil do XI Marquês de Abrantes, meu saudoso Pai. O que ficou da nossa convivência foi uma sua presença muito forte na minha consciência. É com ele que ainda hoje confidencio muitas das minhas pequenas conquistas e derrotas. Quero acreditar que ainda hoje o meu Pai lá de cima me acompanha nos meus passos. E concorde que as nossas disputas, encontros e desencontros, afinal valeram a pena - foram fruto de um grande amor.

Que Deus o guarde na sua infinita misericórdia, e o reconforte das duras provações que passou em vida, é uma oração que aqui deixo e com que termino este testemunho.


Obrigado a todos,

 

21 de Fevereiro de 2018
Convento do Carmo, Lisboa, 

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por João Távora às 15:10

Terça-feira, 20.02.18

Bruno de Carvalho outra vez

Confesso que já não consigo disfarçar com os meus amigos o enorme embaraço que Bruno de Carvalho constitui para mim. O homem envergonha-me como sportinguista que sou. Mas o mais grave é que sua permanente incontinência verbal tenha conseguido desviar a atenção da imprensa de um presidente rival que é arguido e da investigação judicial do caso dos e-mails que esse sim é um verdadeiro escândalo nacional – Em vez disso os dislates de Bruno de Carvalho fazem o pleno em notícias negativas e artigos de opinião e editoriais, até nos chamados jornais de referencia. Como se fora uma autêntica conspiração orquestrada por… si próprio. Se o objectivo é ter toda a Comunicação Social e os seus profissionais, mesmo que sportinguistas, com má vontade ao Sporting, penso que o intento foi conseguido com o estúpido apelo lançado na Assembleia Geral de Sábado. Para mais fica por saber que ilações vai tirar Bruno de Carvalho da desobediência dos comentadores que permanecem nos painéis de debate nas televisões e dos milhões de sportinguistas que continuarão a ler jornais e a ver TV como habitualmente. 
A boa notícia é que Jorge Jesus conseguiu manter a equipa blindada e protegida da irracionalidade do discurso do presidente – ontem ganhámos numa demonstração de garra e crer. O problema é que não consegue blindar os patrocinadores e os bancos de que o Sporting depende de tanta inanidade. Que assusta. Que me assusta.

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por João Távora às 11:41

Terça-feira, 13.02.18

O progresso encalhado

A exibição da série 007 que com diferentes actores protagonistas se mantém desde os anos cinquenta e que por estes dias podemos ver no Canal AMC comprova-o: o mais relevante progresso tecnológico dos últimos 40 anos tem que ver com os “efeitos especiais” no cinema. De resto, tirando o tratamento da informação, a sua portabilidade e a robótica (coisas de duvidosa utilidade), as mais decisivas realizações tecnológicas são já antigas – a última ida do Homem á Lua aconteceu nos anos 70, e desde então a duração de uma viagem de avião entre Lisboa e Nova Iorque não tem progressos significativos, assim como os standards da Alta-Fidelidade ou da locomoção automóvel. Há mais de quarenta anos que o progresso encalhou e vivemos iludidos pelo circo digital.

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por João Távora às 17:52

Sábado, 10.02.18

O sacramento do matrimónio

Há cerca de vinte anos, quando a minha mulher (com dois filhos pequenos) e eu decidimos constituir uma família, não nos passou pela cabeça exigir que a Igreja se adaptasse às nossas conveniências ou ao nosso “sentimento de (in)justiça”. Uma semana antes de consumarmos civilmente essa nossa decisão "fracturante", celebrámos com os amigos chegados uma inesquecível Missa de Acção de Graças na Capela das Amoreiras – foi a última vez durante muitos anos que tomamos o sacramento da comunhão. Durante esse tempo, nunca deixámos de ir à missa, participar na vida da paróquia e dar uma educação católica aos nossos filhos; e foi com humildade e sem ressentimentos que nos juntámos a um grupo de "casais recasados católicos" as “Equipas de Santa isabel" do Cónego Carlos Paes da Paróquia de S. João de Deus, para a catequese e crescimento espiritual em casal. Antes como agora, a Bolota e eu desejamos ardentemente que a Igreja permaneça guardiã do valor supremo da perenidade da família natural como aliança fecunda, sagrada e indissolúvel, construída sobre a rocha. Um núcleo vital para a realização de uma comunidade verdadeiramente livre e pujante.

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por João Távora às 17:16




Sobre o autor

João Lancastre e Távora nasceu em Lisboa, que adora. Exilado no Estoril, alienado com política e com os media, é sportinguista de sofrer, monárquico, católico e conservador. No resto é um vencedor: casado, pai de filhos e enteados, é empresário na área da Comunicação e do Marketing. Participando em diversos projectos de intervenção cívica, é dirigente associativo e colabora em vários blogues e projectos comunicação política e cultural.


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