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João Távora

A Ponte Sobre-o-Tejo

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Foi um ano depois de eu nascer que se iniciaram as obras de construção da Ponte Sobre-o-Tejo em Lisboa. Tenho difusas reminiscências de atravessar o rio de Cacilheiro, no velho Hillman do meu pai atafulhado de irmãos, e memórias mais sólidas de atravessarmos a ponte no Volkswagen novinho, que o meu pai jurava também ser o meu carro quando eu chegasse aos pedais. Nesses tempos de barbárie e obscurantismo, demorávamos mais de quatro horas a chegar a Milfontes com uma bagageira no tejadilho e a mãe com a minha irmã bebé ao colo no lugar do morto, e nós os quatro restantes no banco de trás, metade do caminho a implicar uns com os outros. Uma autêntica aventura do faroeste.

Curioso é hoje verificarmos o embaraço mal disfarçado com que a Comunicação Social assinala os 50 anos da inauguração da ponte, que para infortúnio da narrativa oficial nasceu oito anos antes do tempo. Desconfio que nas redacções subentendem o caricato que é celebrar 50 anos de uma obra rebaptizada com uma data histórica posterior à sua construção. Às tantas dão-se mal com a história que confundem com propaganda, um guião de lugares comuns, atafulhada de esqueletos nos armários, pois há que evitar a complexidade para não confundir as cabeças volúveis das gentes. Ou simplesmente “há que ignorar”, é mais isso. Hoje uma tal de Katia Delimbeuf assinala num pequeno artigo na revista do Expresso que: “às 15,00hs, passaram os primeiros carros do povo, que a rebaptizou após a revolução de 1974”. Claro que a coisa vinda de uma jornalista é mentira; se fosse da pena dum poeta seria apenas uma tirada de mau gosto. Na verdade o povo nunca seria chamado a baptizar a Ponte Sobre-o-Tejo (como sabiamente sempre se lhe referiu), tanto mais que a coisa poderia dar para o torto, como se verificou aquando daquele desgraçado concurso televisivo sobre “Os Grandes Portugueses”.
Talvez interesse pouco relembrar neste dia de comemoração que a Ponte Salazar foi construída tarde de mais, e notoriamente subdimensionada. A maior parte das recordações remotas que guardo dos seus primeiros anos referem-se a épicos engarrafamentos que enfrentei, a ir ou a vir da Costa da Caparica, que se repetiam diariamente às horas de ponta e especialmente no Verão, só verdadeiramente mitigados aquando da construção da Ponte Vaco da Gama mais de 30 anos depois. Desculpem-me o mau jeito, mas a ponte Salazar também é uma parábola sobre a nossa incapacidade de planeamento a longo prazo. Um embaraço apenas comparável ao expediente das revoluções que nos últimos duzentos anos nos trouxeram a este triste destino.