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João Távora



Segunda-feira, 18.06.18

Apanhar os cacos, fazer das misérias grandeza

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Não podemos subestimar o poder destruidor da crise que se abateu sobre o Sporting nos últimos meses e que teve o seu auge no hediondo assalto a Alcochete no mês de Maio passado. Mas é importante insistir que todo este interminável pesadelo tem um responsável, tem uma face e tem um nome: é o presidente, chama-se Bruno de Carvalho e foi instituído de poderes pela maioria dos associados para defender os interesses do clube. Com os resultados que se conhecem: a poucas semanas do início da nova época, os melhores jogadores estão em debandada, o clube descapitalizado, sem capacidade de contratação e de atrair um treinador conceituado ou empolgar os adeptos para renovarem os seus lugares no Estádio para a temporada que se aproxima e se adivinha penosa. Em minha defesa tenho a dizer que nunca votei nele: o seu discurso e estilo, desde a primeira hora me assustaram; senti que fugiam dos padrões estéticos de um clube fundado com valores aristocráticos de lealdade, honradez e razoabilidade. É de resto um indicador da insanidade desta crise quando não tenho maneira de explicar com a cabeça erguida ao meu filho mais novo os recentes acontecimentos com que os colegas da escola o confrontam e zombam. 

Por tudo isto tem sido angustiante para mim acompanhar o espectáculo do afundamento do Sporting e da sua matriz cultural, património imaterial que foi arduamente edificado ao longo de cinco gerações. Um pesadelo de que não me consigo libertar. Não é por acaso que na linguagem corrente os adeptos se confessam pertença a um clube, “Eu sou do clube x” e não o contrário – há aqui uma estranha relação de subordinação (só Bruno de Carvalho não entende esta escala de valores). São assim misteriosas as leis emanadas pelo coração, e é esse o seu fascínio. Para mais até conheço a genealogia do meu sportinguismo que desde os anos trinta se alastrou através da família e que culminou com as minhas idas ao futebol pela mão do meu saudoso Tio Manel no início dos anos 70, sportinguismo que contagiei aos meus filhos que desde pequenitos incondicionalmente me acompanharam nesta ingrata paixão.
Um aspecto importante que não posso deixar de referir nesta crónica é a minha suspeita de que a grave crise no Reino do Leão está a mascarar uma outra bem mais séria, que é a adopção pelos clubes de um discurso fanático e irracional para promover a militância mas que expulsa o simples simpatizante. Esta estratégia a longo prazo condenará o futebol a um nicho de maníacos descerebrados que são as claques. O fanatismo expulsa os simples adeptos, que não têm pachorra para o triste espectáculo de insano confronto e troca de insultos que tomou conta das notícias e dos intermináveis debates televisivos que destroem a reputação do futebol. E se, como parte dessa política de “ganhar a todo o custo” se vier a confirmar que existem movimentações obscuras de tráfico de influências e corrupção?
Termino com uma mensagem de esperança, porque uma luz ao fundo do túnel se parece acender quando o inenarrável presidente, do meio de uma espiral neurótica de descontrolo emocional (que não tem pudor de exibir diariamente nas redes sociais ou televisões) vem aceitar como inevitável a Assembleia Geral do próximo sábado dia 23 que promete devolver aos sócios o poder sobre os destinos do clube. Com essa reunião magna teremos a oportunidade de darmos início à reedificação do Sporting do rasto de escombros que é o legado de Bruno de Carvalho. Será por certo uma dura a travessia do deserto e um desafio a fazermos das misérias grandezas. Porque somos grandes, somos resistentes, porque temos de saber merecer o Sporting que nos foi legado. E sabem que mais? Estou convencido de que voltaremos a sorrir.

 

Publicado originalmente no Ponto SJ, o portal dos Jesuítas em Portugal,

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por João Távora às 18:34





Sobre o autor

João Lancastre e Távora nasceu em Lisboa, que adora. Exilado no Estoril, alienado com política e com os media, é sportinguista de sofrer, monárquico, católico e conservador. No resto é um vencedor: casado, pai de filhos e enteados, é empresário na área da Comunicação e do Marketing. Participando em diversos projectos de intervenção cívica, é dirigente associativo e colabora em vários blogues e projectos comunicação política e cultural.


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