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João Távora

Até sempre Tio Manel

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 Manuel Pedro de Carvalho Gomes de Castro

1944 - 2015

Se somos moldados pelas contrariedades que enfrentamos, também é certo que somos feitos das pessoas que amamos. Isso é um consolo. Porque a pessoa só o é na sua relação com os outros, porque nós somos sempre muito mais em comunidade: seja a dos antepassados que partilhamos, das cores que elegemos, dos tiques e afeições que comungamos. 

Vêm estas palavras a propósito da grande dor que me vem causando a partida do meu Tio Manel que hoje se junta ao Criador. Um pouco de nós próprios morre com os amigos de quem não nos conformámos ver partir. Talvez isso facilite o culminar da nossa própria peregrinação terrena. Além disso, acontece que um tio, um bom tio, é uma instituição familiar preciosa, insubstituível: a testemunha privilegiada de que os nossos pais não são uns extraterrestres. Porque um tio tem a vantagem de reflectir os valores da nossa família sem o “peso” das responsabilidades parentais que tanto condicionam o “convívio”. O Tio Manel era isso tudo, soube ser isso tudo, pôde ser isso tudo: tendo casado tarde e não tendo tido filhos, construiu uma extraordinária reputação com os muitos sobrinhos que lhe foram surgindo ao caminho pela vida fora.

Isso explica-se mais ou menos assim: quando estava na casa dos meus avós na Avenida da Liberdade a passar uns dias, com o Tio Manel também tinha que ir à missa, mas depois íamos espraiar as emoções para Alvalade. Ou para a Costa da Caparica. Com Tio Manel dei o primeiro golo de cerveja, conheci o cheiro da cigarrilha e aprendi o sabor da Água de Castelo. Ao seu lado na bancada do antigo Estádio de Alvalade, ou no seu mini cor-de-vinho, aprendi quando um homem deve viver a frustração em silêncio. Éramos muito diferentes, bem sei. Mas com ele apreendi a maior lição da vida, a da coragem e perseverança: cumpriu a tropa nos anos na guerra do ultramar, assunto de que nunca o ouvi falar; a seguir agarrou com as duas mãos um modesto emprego numa companhia de seguros, do qual construiu com tenacidade uma vida digna (e como isso é importante, apesar da vulgarização da palavra). Agora, a este ponto da vida fico com a ideia que a reforma faz mal à saúde das pessoas. De cada vez que nos tempos mais recentes nos encontrávamos em Alvalade ficava a ideia que os anos lhe pesavam cada vez mais, quase lhe levavam o proverbial bom humor. 
Falta uma referência ao Sporting, que amou como poucos e que lhe fica em dívida pela enorme fidelidade que sempre dedicou ao clube do seu coração: esse é um legado de que me orgulho e que em mim tem a sua assinatura. 
Nascido em 1944 em casa aos seis meses de gestação com pouco mais de seiscentas gramas, diz a lenda que sobreviveu envolvido em algodão em rama à conta de insistentes exercícios de ginástica respiratória. Onde quer que esteja, por todas as razões, o Tio Manel será sempre um grande Campeão. Deus o tenha na Sua infinita Glória.