Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

João Távora

Coisas estranhas

Stranger-Things-Kate-Bush.jpg

Há poucas coisas mais difíceis hoje em dia na minha casa que ver em família uma série de televisão em streaming. Acontece que há sempre alguém à hora combinada que não pode estar presente na sala por causa de programas inadiáveis, sempre interessantíssimos, que justificam o resto da comunidade ficar solidariamente em suspenso à espera duma oportunidade consensual. Acontece que os episódios estarão lá indefinidamente ocultos, mas disponíveis, toda a gente sabe; por isso adia-se mais uma vez. Mais valiam os meus tempos de juventude: naquele serão de 5a feira, quem não estava, que estivesse. O drama só avançava um episódio por semana mas não dependia de apetites individuais.

Vem isto a propósito de “Stranger Things”, uma série escrita e dirigida pelos irmãos Duffer, cujos episódios vêm sendo estreados na Netflix deste 2016 tendo recentemente a IV temporada sido disponibilizada. Essencialmente destinada a adolescentes, com o protagonismo principal de um grupo de jovens, “Stranger Things” no entanto apresenta iconografia e referências destinadas a atrair as gerações mais velhas – uma coisa esperta.  A trama, passa-se em meados dos anos oitenta numa pequena cidade do Estado de Indiana, remetendo todo o ambiente, o guarda-roupa, cenografia, até as cores carregadas do vídeo, para essa época. Para isso também contribui a banda sonora, senhores – eles sabem brincar com a nostalgia. A intriga desenvolve-se à volta de um obscuro mundo inverso e subterrâneo onde um mora um terrível monstro que os governos da União Soviética e dos EU envolvidos em experiências cientificas tentam esconder, tem tudo para reunir a família inteira, onde ela ainda possa resistir nesses moldes. Entretenimento puro.

Ora, foi nesta série, que me foi aconselhada há uns meses pela minha filha, que aconteceu o fenómeno que aqui quero relevar: trinta e sete anos depois (!) de tocar pela primeira vez numa estação de FM, a canção “Running up that hill”, de Kate Bush ressurge e alcança o primeiro lugar das tabelas de streaming mundiais, como hino de uma nova geração – ainda não chegámos a esse episódio, por cá ainda estamos no início da III temporada. Parece que miudagem se converteu à musa da minha juventude. Deste modo Kate Bush vem batendo várias marcas inéditas, não só a de despertar a curiosidade da minha filha para uma música que me apaixonou em tempos longínquos e que eu pensava perdida para a miudagem, como estabelece o recorde do mais longo período de tempo que um tema demorou a alcançar o primeiro lugar nas tabelas de singles oficiais – 37 anos. Uma coisa verdadeiramente estranha que tenho esperança de entender quando chegar ao dito episódio. Porque será que, entre tantas canções dos anos oitenta incluídas na banda sonora da série, é com “Running up that hill” que acontece este fenómeno? A minha resposta, certamente simplista, é que a canção, incluída no álbum “Hounds of Love” de 1985, é, como sempre suspeitei, um grande tema – o disco é quase todo genial, aliás.

Alguém comentava há dias no Twitter que, por conta da canção (como todas as suas canções) lhe pertencer integralmente em autoria e direitos, este fenómeno lhe está a render cerca de 250.000 libras por semana. Kate Bush afirmou numa raríssima entrevista à BBC dada há umas semanas, estar muito espantada com o prodígio da sua recente popularidade. Com sessenta e três anos, retirada na sua casa de campo com um grande piano, confidenciou-nos não usar telemóveis espertos, o que é uma desnecessária prova da sua forte personalidade, e que para seu sossego, não frequenta redes sociais - e imagino que também não oiça música pelo telemóvel.

Talvez os mais desatentos não saibam que Kate Bush publicou em 2013 o seu último álbum, “50 Words for Snow”, uma autêntica pérola, que estou em crer terá passado ao lado da malta nova. O que eu vos posso garantir é que a cantora e compositora Kate Bush merece todo este renovado sucesso tardio. E nem sonham a sorte que têm se se dispuserem a descobrir a sua extraordinária obra. Integralmente feminina.

Ainda bem que acontecem coisas estranhas. Com sorte verei a série até ao fim em boa companhia, que há diversões que só fazem sentido dessa forma.

 

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.