Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

João Távora

Com que então Mbappé não é francês?

Mbapé.jpg

Sou confrontado com este print dum poste da Rita Matias do Chega na rede X e confesso que me surpreende, até pensei que era montagem. Cheguei a supor que a deputada se distinguia por algum excepcional bom senso e moderação naquele partido, qualidades essenciais para a discussão de um assunto tão complexo e delicado quanto o fenómeno da imigração massiva para a Europa, mas enganei-me. Exigir-se-ia alguma elevação e honestidade intelectual a alguém que se queira destacar dentro da comunidade a liderar os seus destinos, e não ser um vulgar incontinente verbal a alimentar as redes sociais com disparates – um perigo para as ambições de políticos incautos. Ou então, o objectivo de Rita Matias não é a promoção de soluções para os grandes desafios dos portugueses, mas apenas criar estardalhaço e acicatar as hostes nas suas trincheiras a apedrejarem-se mutuamente – coisa pouco cristã.

Mas vamos aos factos: o genial Kylian Mbappé, nasceu em França em 1998, mais concretamente em Paris, filho de um camaronês cristão e de uma argelina. Para a extrema-direita francesa a Argélia é França. Até Éric Zeemour, expoente máximo da direita nativista francesa é retornado da Argélia, um autêntico “Pied-noir”. Insinuar que o Mbappé não é francês, ou é ignorância ou má-fé da deputada do Chega. É assim como dizer que o Eusébio ou o Matateu não são portugueses, ou que Tito Paris ou Nelson Évora não sejam bem-vindos em Portugal.

De resto, por falar em generalizações e clichés, a França só se tornou numa potência do futebol (desporto que os “nativos” sempre desdenharam) com a imigração, onde se incluíam os portugueses. Quer-me parecer que os franceses idealizados sempre foram mais apreciadores de bons queijos, bons vinhos e motins violentos, tendo-se políticamente destacado mais a cortar cabeças que pela devoção cristã, qualidade esta última que suspeito Rita Matias valoriza. O mundo é mesmo complicado...