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João Távora

Desarvorados

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Atraiu-me a palavra “arvorar”. Desarvorar, em termos populares, segundo o dicionário Priberam quer dizer abalar, safar-se, desaparecer. Mas a palavra exibe a sua origem, talvez longínqua, em “árvore”, que na linguagem náutica significa o mastro do navio. Assim,  pode entender-se o seu verdadeiro significado: desarvorar é arriar o que está arvorado, nomeadamente a vela de um barco, a bandeira de um castelo. Já a palavra “arvorar”, soa-me a “fazer-se de árvore”, assumir uma postura altiva, de quem vê o mundo lá de cima, em perspectiva.  Mas a árvore tem raízes, como é possível então o acto de desarvorar, como quem diz, fugir por aí a fora?

Estamos todos muito desarvorados por estes dias. Arriamo-nos, pusemos a viola no saco. Safámo-nos e abalámos, arrastando as raízes soltas que levantam pó. Se nos arvorássemos teríamos outra perspectiva. Lá em cima estamos sempre mais próximos de Deus, o que é o mesmo que dizer “do Altíssimo”. É “arvorados”, se possível no cimo da montanha, que Lhe podemos melhor chegar. No entanto, optamos demasiadas vezes por desarvorar, que é uma forma de fugir, cá em baixo, rente ao chão. De raízes a arrastar.

Mas podemos sempre arvorar as velas, içar as bandeiras, subir a serra, olhar o mundo de cima. A maior vantagem de ser uma árvore, é olhar o mundo lá de cima.

Na imagem: Escultura de Vanderlei Lopes