Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

João Távora



Quinta-feira, 13.09.18

Duas pinceladas impressionistas sobre a história da humanidade

Metamorfose de Narciso - Salvador Dali.jpg

Expulsa do Éden, a humanidade tornou-se escrava dos elementos, receosa da criação, desconfiada do seu olhar. O homem ganhara consciência de si, prenúncio de uma tragédia. Com o tempo, foi aprendendo (e obrigado) a olhar à sua volta, a interpretar o Mundo e assim defender-se da sua violência, iludindo a precariedade. Olhando para fora identificou as ameaças mas descobriu a Beleza onde se esconde Deus. Seduzido pelo seu reflexo, assim foi progressivamente fortificando a ideia de individualidade que o olhar de Cristo consolidou na noção de Livre Arbítrio (vontade) e na consciência da sua singularidade de criatura divinal e dramática. Esse percurso é reflectido nas artes, da literatura à pintura, passando pela música; do formalismo à exacerbação do filtro das paixões, desejos e frustrações, da genialidade com que o artista foi submetendo a realidade à sua recriação. Daí ao auto-convencimento da supremacia do seu olhar sobre a realidade em si mesma, fixado na sua auto-suficiência, o “eu” arvorou-se no fim e o princípio de todas as coisas e até a beleza caiu em desuso. Não interessa mais o que são as coisas, mas como cada um as sente, e vai aonde te leva o coração. Assim, o individuo desliga-se dos outros e da História, descarta o compromisso por troca com o efémero, todos filhos únicos, geração espontânea,  tudo é relativo, sensações, uma pedrada, uma “experiência”, um estado de espírito, o amor-próprio e outras balelas, uma "assinatura" esborratada num monumento, “ó Leonilde is lôve”, que a Arte é um direito de todos como a opinião. 

Aqui chegados, tornámo-nos todos narcisos definhando estéreis à beira do rio que flui indiferente, embevecidos (ou acabrunhados) com o próprio reflexo, que a vida são só dois dias e amanhã é o fim do mundo.

 

Imagem: Metamorfose de Narciso, Salvador Dali 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por João Távora às 20:18



2 comentários

De Anónimo a 14.09.2018 às 09:46

João queira receber um abraço por está pág de blogue contendo um relato que me entra quotidianamente por uns olhos para os quais se torna cada vez mais evidente que, do Livre Arbítrio à realidade, vai uma distância muito semelhante aquela que separa a França da Liberté.,Egalté et Fraternité...
Tenho enorme esperança de que entenda onde quero chegar
Seu leitor pontual, e creio que saudavelmente divergente de quando em vez
Manuel Mendonça

De João Távora a 14.09.2018 às 09:56

Abraço, Manuel. É sempre tão bem vindo o seu acordo quanto o contraditório.

Comentar post




Sobre o autor

João Lancastre e Távora nasceu em Lisboa, que adora. Exilado no Estoril, alienado com política e com os media, é sportinguista de sofrer, monárquico, católico e conservador. No resto é um vencedor: casado, pai de filhos e enteados, é empresário na área da Comunicação e do Marketing. Participando em diversos projectos de intervenção cívica, é dirigente associativo e colabora em vários blogues e projectos comunicação política e cultural.


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Pesquisar

Pesquisar no Blog  

Instagram

Instagram

calendário

Setembro 2018

D S T Q Q S S
1
2345678
9101112131415
16171819202122
23242526272829
30