Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

João Távora

"E, afora este mudar-se cada dia, Outra mudança faz de mor espanto: Que não se muda já como soía" *

Lusa.jpg

Quando no feriado do 1º de Maio à tarde atravessei a pé a Alameda D. Afonso Henriques, em pleno encontro do “povo trabalhador”, deu para constatar que a média de idades dos participantes, longe das grandes multidões dos anos 70 e 80, não andará distante dos sessenta anos. Ou seja, a grande maioria daqueles com que me cruzei, são os mesmos que andam nessa vida, de manifs, greves e reivindicações, há cerca de cinquenta anos - curiosamente exibindo o mesmo trajar e estética capilar. Se por um lado me apraz a constatação de que esse fenómeno revolucionário nascido da militância sindical do pós 25 A se encontra em vias de extinção, como um fenómeno geracional que foi, a expressão do novo esquerdismo progressista que vai tomando forma, aquilo a que se vai definindo (de forma grosseira) como “movimento Woke” com as suas diferentes mecânicas e formas de expressão, não me deixa nada descansado. Não tenho nada a certeza de que o sistema liberal representativo em que vivemos no ocidente em geral, cada vez mais polarizado e socialmente atomizado, consiga absorver e integrar estes movimentos minoritários de ruptura, que em tempos, em Portugal, eram “domesticados” pela esquerda institucionalista e os seus sindicatos satélites. Pelas discussões e fracturas que vão tomando lugar no espaço público receio vir a ter saudades deles…

* "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades" Luís Vaz de Camões

Fotografia Miguel A. Lopes - Lusa