Estado de sítio (22)
Sol na eira e chuva no nabal

Coronavírus hoje em Portugal – 21.379 casos, 762 vítimas mortais
Quando me vêm com a conversa das diferenças culturais e comparações entre as economias do norte e do sul da Europa, eu sou forçado a aceitar que elas existem e que isso é bom, apesar do alto preço que pagamos (eles nunca vão querer pagar-nos). Hoje pela manhã à vinda do Supermercado, com uma temperatura acima dos 20 graus, vinha a reparar na primavera a despontar nos canteiros e nas frechas dos passeios, onde as papoilas rebentam no lugar das azedas. Ao chegar à praceta deparo-me com os velhotes e os desocupados a conversarem displicentemente com a máscara no queixo em frente à tabacaria e ao restaurante que improvisou um guichet para servir cafés em copos de plástico, salgados e refeições para levar para casa. O confinamento mata mais que o novo coronavírus e não é em vão que Deus nos presenteou com este clima. Já no norte da Europa eles vêm-se obrigados a trabalhar para aquecer ou na melhor das hipóteses a tirar a neve dos telhados ou da frente da casa. Claro que lamento o nosso centralismo republicano, a mediocridade e a desresponsabilização pessoal. A embaixadora da Suécia um dia destes explicava numa entrevista que o seu governo constitucionalmente não tem poderes para fechar as empresas e muito menos as pessoas em casa. Em compensação temos esta coisa fantástica da família alargada, com os tios, os avós, os primos, muitos primos, um Portugal que não podemos deixar morrer. Se isso acontecer corremos o risco de ficar com o pior dos dois mundos: a pobreza dos latinos e a solidão dos nórdicos. A minha geração não precisou do emprego, de uma carreira, ou do associativismo para conviver, fazer amigos ou namorar. Temos famílias grandes, a paróquia, a vizinhança, os cafés, as esplanadas e as praias mornas (quase) o ano todo. Essas são vantagens impossíveis de mutualizar com os nossos parceiros do norte. Tornamo-nos crianças grandes, gostamos que decidam por nós, metediços uns com os outros, mas com isso também nos amparamos preguiçosamente. Como é que podemos obrigar os nórdicos a pagar a factura disto tudo? No fundo, os portugueses europeístas são uns gananciosos: gostavam de emigrar sem sair de cá, querem o sol na eira e chuva no nabal. Percebo-os, o meu patriotismo também tem dias.