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João Távora

Estado de sítio (5)

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Coronavírus hoje em Portugal – 642 casos, 2 vítimas mortais

Confesso que me faz alguma urticária a perspectiva da declaração de Estado de Emergência prenunciada para logo ao final do dia. Não sei se não será um exagero em face à forma disciplinada como, em liberdade, os portugueses têm respondido às exigências deste infortúnio global. Portugal está praticamente paralisado e intuo que não será fácil manter este estado de coisas por muito tempo, os anúncios de encerramento de lojas e indústrias vão-se multiplicando. Aqui na praceta é desoladora a paisagem com o parque dos baloiços silencioso. O restaurante aqui debaixo fechou e espero que não aconteça o mesmo com a tabacaria. Até quando serão distribuídos os jornais em papel? Será este o seu fim tantas vezes profetizado? Mas para já a prioridade é o isolamento, concentremo-nos nisso. A segunda vítima mortal é o banqueiro Vieira Monteiro, sinal de que o vírus é democrático, não olha a condição económica ou social. Deus o tenha na sua infinita misericórdia.
Cá por casa hoje ainda houve condições para a minha mulher ir ao notário certificar duas traduções, resquícios de normalidade que não sabemos quanto tempo durará. Nesse sentido fui à farmácia aviar umas receitas, na perspectiva de não voltar tão cedo – a entrada no interior era limitada por senhas e no balcão estavam montados uma espécie de guichets de acrílico transparente. O resto do pessoal, dentro dos condicionalismos, continua com a cabeça fresca, com as novas rotinas a serem assimiladas. A minha filha que está a cursar direito na Faculdade de Lisboa vai comparecendo nas aulas virtuais, transmitidas em directo por uma aplicação chamada Zoom.  
A excepcionalidade da situação obriga-me, a mim que sou viciado em notícias, a medidas de disciplina especiais para não entrar em parafuso: só as consumo ao levantar pela rádio Observador e depois do jantar faço um zapping pelos noticiários da TV, e ontem fiquei surpreendido com a aparência descuidada de alguns comentadores que surgem via skype sem qualquer cuidado no arranjo pessoal, algo que por uma razão de respeito pelos espectadores me parece injustificado. Sei que a moda pegou com o Chefe de Estado, mas convém não exagerar. Por exemplo, descontando o hipotético drama pessoal por que passa o Pedro Santos Guerreiro no seu isolamento, não se compreende que apareça na TVI 24 com o cabelo em pé, barba de 3 dias e com a gola da camisa à banda. Corremos o risco de assustar os telespectadores, sendo que para mais ainda estamos no início da crise.  
Desconfio que amanhã já não poderei ir fazer a minha corridinha higiénica sem correr o risco de ser interpelado pela polícia ou por um vizinho mais zeloso. Mas voltarei aqui se Deus quiser, mesmo que não tenha coisas muito interessantes para dizer, como vem sendo o caso.