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João Távora

Estamo-nos quase a ir embora

Não falta muito tempo (e o que é isso do tempo?) para sermos esquecidos destas ruas que um dia palmilhámos em busca de quem. Porque foi só com os outros que existimos. Aquela música que já não toca para nós, da janela ninguém nos espreita, ninguém nos espera, como quando fomos esperança de alguém e nos guardou numa moldura empoeirada. Enquanto a memória durar, enquanto os nossos mais queridos permanecerem, que também eles se irão embora, corrompidos pelos anos em que a saudade se esvai, por troca de rugas fundas de estranheza. A culpa foi toda nossa que quisemos um sentido para viver. Virão dias luminosos indiferentes à nossa ausência. Ofuscantes, tudo por resolver a desordem também. As ondas geladas do mar a rebentar nas rochas, as mesmas em que um dia nos sentámos, a conversar a vida, fazer projectos e balanços. Fomo-nos todos embora, e o vento levanta-se arrogante. Mas  o mistério está para durar (o que é isso do tempo?), que é maior que a feroz clarividência, mesquinha e traiçoeira.  Enquanto houver uma casa.