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João Távora

Gente feliz com lágrimas

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O futebol tapa muita coisa, dizia-me um dia destes um familiar muito assisado. Nada mais verdadeiro, mais ainda quando a política em Portugal por estes dias anda tão rasteira, cheira tão mal que tresanda de oportunismos e malandrices - que se lixe a Pátria.

Em boa hora, é neste panorama deprimente que o Sporting se sagra campeão nacional. Uma estonteante alegria infantil que venho saboreando, aficionado que sou do futebol, sportinguista de corpo e alma, uma pertença que recebi de família, que ao longo da vida nem sempre foi leve. Talvez por isso nestas alturas usufrua o acontecimento com desmesurado e intenso prazer. Até um crónico derrotado como eu, sempre do lado minoritário da barricada, merece o sabor goloso duma vitória destas, mesmo no lado lúdico da vida -  é o que levamos daqui.

Um aspecto particularmente fascinante, mesmo que não seja exclusivo do futebol, mas que me agrada de sobremaneira, é a vertente colectiva desta apaixonante modalidade: uma equipa liderada com o espírito certo, atinge resultados muito superiores à soma dos seus elementos. O espírito de grupo, a solidariedade e complementaridade entre os elementos, cada um fundamental para a dinâmica e motivação em vista. Repare-se como a retirada de um elemento num determinado confronto, se  momentaneamente fragiliza a prestação, o restante grupo, se coeso e bem liderado, supera-se em solidariedade e empenho. Se alguém cai, logo outro o levanta ou substitui na função. É isso que de mais belo a humanidade consegue ser. Fazer. 

Assim aconteceu com o meu Sporting esta temporada, com exibições de encher o olho, entusiasmantes de alegria e nota artística. Um sinal de que o fado não é uma fatalidade. E que, pelo menos na bola, os meus por uma vez dão a volta ao texto, dão a volta à História, viram o jogo e ocupam o lado de cima, sobem ao céu. Contra ninguém.

Os Sportinguistas têm a oportunidade de, de uma vez por todas, adoptar o discurso pouco trágico dos vencedores, um sítio gostoso de olhar o Mundo e expulsar o estigma da modéstia e da derrota, da vitória moral, do caminho de morte, sintoma de fim. De deixarmos de justificar as derrotas com as nossas virtudes morais, uma narrativa enganosa, do receio da felicidade, da luz do sol encadeante, que ilumina o gosto pelo sucesso, a recompensa pelo esforço.

O futebol tapa muita coisa mas também desvenda muita coisa. O sucesso é uma coisa boa, aliada à virtude, à luminosidade, à verdade. A vitória do Sporting neste campeonato, jogado às claras, sem equívocos ou batotas, com público nas bancadas e com competições europeias é um verdadeiro consolo. Uma vitória que, propositadamente não atribuo a nenhum protagonista especial, porque é uma vitória de grupo, de equipa, de conjunto, de uma cultura, de uma comunidade. Em que todos os protagonistas, do adepto ao roupeiro, da bancada ao camarote ou à equipa técnica, do guarda-redes ao ponta de lança, todos foram fundamentais. Talvez a fechar uma página da nossa história, um fado de gerações.

Viram bem as faces felizes, os sorrisos francos, as lágrimas de felicidade, que correram por esse Portugal inteiro, a desaguar na rotunda no Domingo? E se Portugal todo se pudesse inspirar neste fenómeno?

Publicado originalmente aqui