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João Távora

I'm a Fool to Want You

Já disse noutras ocasiões como tenho dificuldade em escrever sobre discos que não gosto, e como a coisa piora muito quando me apaixono por algum – talvez com receio do ridiculo que são sempre as declarações de amor. É por isso que venho adiando estas palavras sobre Shadows in the Night, o 36º disco de Bob Dylan que nos surpreende com a interpretação nasalada e displicente de dez temas criteriosamente repescados do reportório de Frank Sinatra, um seu antípoda da música popular. 

A estranheza de Shadows in the Night adensa-se ao constatarmos que a grande orquestra tipica de Sinatra foi substituída por uma pequena banda em que se destaca uma desconcertante pedal steel guitar de tonalidades havaianas. No mais, os arranjos são suportados pelo dedilhar da guitarra acústica de Bob Dylan, um contrabaixo e metais esporádicos. O resultado é o encantamento, que ganha laivos de submissão à vigésima audição. Produzido por Jack Frost que o grava "ao natural" - sem remisturas (hoverdubs), nem filtros - a coisa resulta mágica, como se os rapazes estivessem ali mesmo a cantar, a tocar, a respirar, para nós. O modo como foi captado o som produz um extraordinário efeito de presença física, potenciado se o álbum for reproduzido em formato vinil numa boa aparelhagem.
O facto é que um mês depois de ouvir Shadows in the Night, até parece que temas doces e amargos  como "The Night We Called It a Day" , "Why Try to Change Me Now", "Some Enchanted Evening", "What'll I Do" foram criados para a voz de Dylan, melancólico anti-heroi, cowboy rouco e desajeitado, e não para um glamoroso romântico do cinema e do music hall como Sinatra era, com a sua voz poderosa e sensual. Se lá em cima já tiveram a desfaçatez de lhe mostrar este álbum, ele certamente irá perdoar-me o atrevimento desta opinião. Ironicamente, parece-me que a interpretação de  "I'm a Fool to Want You" é o melhor tributo que Bob Dylan poderia fazer ao seu autor, que um dia disse do Rock 'n' Roll ser “a música marcial feita para delinquentes, cantada por cretinos.”  

De resto, o mais importante é comprar este álbum, e usufruir com deleite da Graça de se ter o coração perto duns bons ouvidos.