Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

João Távora

Indomável humanidade

Rentes de Carvalho.jpg

Foi com estranheza que ontem ao visitar o blogue "Tempo Contado" do escritor José Rentes de Carvalho o encontrei encerrado, ao que parece definitivamente. Durante os últimos anos ali fui encontrando pequenas reflecções e crónicas do melhor que se escreve na blogosfera, com a particularidade, por vezes desconcertante, de exibirem um absoluto desapego às estéreis espumas que enleiam os nossos dias, condicionando as prioridades e o pensamento.
Foi um pouco abaixo desse post de despedida que me deparei com o perturbador texto que para todos os efeitos constará como o último que tomou letra de forma no blogue. Sem aludir ao terrorismo organizado, este realça algumas aberrações que a humanidade teima exibir nestes supostos tempos de progresso e modernidade: a fortuna de Putin, os relógios cujo preço chegava para alimentar uma cidade inteira, o Iate do califa de Abu Dhabi avaliado em 650 milhões que contrastam com a miséria nas ruas de Bombaim em que pessoas têm de pagar a um mafioso para ter espaço para dormir no passeio público. Pois é José, milhares de anos de civilização não resolvem a alarvidade latente no ser humano. Cada homem que nasce é uma construção a partir do zero, e para o bem e para o mal a vontade do indivíduo continua a prevalecer sobre os sistemas que vamos aprimorando com tanta soberba. Não há progresso que resolva a perversão do homem e uma bomba atómica nas mãos dum depravado será uma desgraça, hoje ou daqui a mil anos, se por aqui andarmos ainda. E se temos um mundo para mudar, temo bem que a parte que nos cabe em conta e que depende do nosso estrito comportamento, se formos ambiciosos, exceda a nossa capacidade e o tempo normal de aprendizagem. De resto sou um profundo descrente em sistemas e deposito a minha preferência naqueles que oferecem espaço ao homem para se realizar e a liberdade para se redimir. Porque se não nos podemos conformar com o mal que nos mata a cada dia, não podemos deixar de exaltar os heróis que todos os dias fazem deste mundo um sítio mais decente. Foi sempre essa mensagem, mesmo que escondida em descrença, que fui elegendo no Tempo Contado, José. Obrigado e até sempre.

Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.