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João Távora

Inquietações

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Curioso é o brado que se levantou por causa de um programa de televisão em que crianças problemáticas são utilizadas para o entretenimento da turba, num tempo em que as questões morais parecem deslegitimadas da discussão pública, para serem substituídas por argumentos científicos e técnicos (mais ou menos discutíveis). Estranha-se que esta indignação monopolize a praça pública quando ontem soubemos que em 2017 houve mais 24 mil mortes do que nascimentos em Portugal, coisa que poderá significar o recorde do século. Mal ou bem-educados, os portugueses parecem estar em acelerado processo de extinção (somos o 5.º país mais envelhecido do mundo), uma dinâmica de morte que se repete com a família “natural”: por cada 100 casamentos que são registados em Portugal há 70 pedidos de divórcio, o número mais elevado da Europa. Se considerarmos como, ao contrário da generalidade dos países europeus, por cá a sociedade civil é débil e que ao longo de décadas a família foi o principal suporte dos indivíduos, apercebemo-nos do trágico significado destes números: uma sociedade cada vez mais atomizada, com as pessoas tendencialmente isoladas e desprotegidas perante um Estado cada vez mais poderoso e omnipresente. Paradoxalmente, as nossas elites por estes dias parecem estar mais preocupadas em discutir os malefícios do sal e as virtudes do autocultivo da cannabis, já para não falar da liberalização ou não do consumo recreativo deste psicotrópico alucinogénio. E é aqui que voltamos à questão levantada no início desta nota: este é um assunto técnico ou uma questão eminentemente moral? Que sinais pretende o Estado dar aos nossos jovens, sobre o que é bom ou mau para a formação de um bom caracter? 

Todos estes sinais deviam provocar-nos muita inquietação, e desconfio que a sustentabilidade da segurança social é o menos aflitivo. Afinal, andamos todos distraídos com quê?

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