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João Távora

Jéssica

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A propósito do hediondo caso de tortura e assassinato de uma menina de 3 anos em Setúbal que a todos nos vem martirizando as consciências, Marcelo Rebelo de Sousa relevou o sinal de miséria moral que o caso evidencia e que nos deve fazer reflectir. Desta vez confesso que estou de acordo com o ângulo da perspectiva do comentador, que acedo a aprofundar. Se por estes dias se ouvem muitas vozes genuinamente indignadas com a falha do Estado e dos seus organismos, julgo que esse é o ponto menos relevante, independentemente de reformas e aperfeiçoamentos que eles mereçam. No meio do choque e incredulidade com os meandros da macabra história, julgo ser necessária a lucidez de aceitar que a maldade sempre existiu e existirá em potência e (ainda bem) que nos consegue surpreender desta maneira mais brutal – porque é contra-natura e antinatural, um acontecimento raro, portanto. E que a única forma que temos de precaver a ocorrência casos de crueldade indizível como estes é o estreitamento da malha social, através das instituições orgânicas que a compõem e estão em profunda crise, as comunidades num processo de atomização voraz e consequente desenraizamento humano. Colocar no lugar da família alargada, da comunidade de proximidade, da paróquia, ou de outros organismos intermédios, uma máquina de vigilância estatal que actue como um colossal polvo policial, é no meu entender um erro grave, não só porque a sua eficácia será sempre risível na gestão do conflito de valores que este tipo de matéria sempre gera, mas porque nada consegue substituir as relações de proximidade duma comunidade estruturada e com valores morais. O “policiamento” dos núcleos familiares problemáticos por entidades estatais é por natureza propensa ao erro e ao abuso, estou em crer. O que eu quero dizer é que temos sorte de não sermos mais vezes confrontados com outros casos chocantes de bestialidade humana como o de Jéssica, tendo em conta a solidão e miséria moral que grassa na sociedade que emerge da modernidade individualista e hedonista que construímos.

Deus receba a menina Jéssica no seu colo acolhedor, tenha piedade dos seus malfeitores e nos perdoe não a termos salvo.

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