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João Távora

Mais desventuras do Ventura

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Não sei se é do conhecimento dos leitores, mas anda agora na moda um tipo de programas de TV de debate sobre futebol em que os representantes de cada um dos “grandes”, alguns figuras públicas que deviam ter alguma vergonha na cara, analisam as jogadas polémicas da jornada, não através dum exame objectivo, mas sem qualquer laivo de razoabilidade e usando uma berraria insana, pretendendo impingir uma perspectiva fictícia que favoreça as cores do seu clube, nem que para isso tenham que mentir descaradamente. Patéticos, parecem crianças a discutir o tamanho do carro do pai. Curiosamente é esta a origem do André Ventura, personagem que ontem à noite na TVI 24 ouvi a reclamar a re-instauração da pena de morte e da prisão perpétua em Portugal. Como se em Portugal fosse o faroeste, antro da criminalidade mais hedionda e impune; e como se os países em que a pena de morte é contemplada na lei fossem exemplares oásis de paz. O que mais me custa engolir é que este discurso de ódio de André Ventura, que ignora a realidade pacífica em que vivemos, que se suporta de exemplos limite, de chocantes e hediondos crimes em paragens indeterminadas e impossíveis de verificação mas que servem bem para acicatar os sentimentos mais básicos de revolta e alarmismo, tem aceitação em muita gente… O crime compensa: está visto que Ventura atrai audiências e por isso as imbecilidades por si proferidas são notícia todos os dias.

Pela minha parte, aprendi com o meu Pai a orgulhar-me de pertencer a um dos primeiros países a abolir a pena de morte, um marco civilizacional que eu julgava perfeitamente adquirido. Nada é adquirido, e sabemos bem como o ódio medrou e venceu, na Revolução Francesa, na Alemanha Nazi ou nas tiranias comunistas. É estranho perceber que haja quem, sem pudor, apenas tendo em vista uns minutos de fama (e umas eleições autárquicas), assuma um discurso tão reaccionário. E choca-me perceber que entre muitos dos meus correligionários haja hesitação em condená-lo.