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João Távora

Um fado bem podrtuguês


Aquela mórbida idolatria promovida à volta de Cristiano Ronaldo no mês que precedeu o Mundial de Futebol, que ironicamente coincidiu a campanha publicitária da sua parceria com a D. Inércia do Banco Espirito Santo, definitivamente não era um bom prenúncio. Para mais, além de ser um excepcionalmente dotado atleta que não se poupa ao empenho nos seus objectivos, acontece que o melhor futebolista do mundo tem o ego de um adolescente, e aquela inebriante mistificação tinha tudo para se tornar numa parábola sobre o triste fado dos portugueses. Pensar ser possível que um jogador sozinho mude o carisma de uma equipa de futebol mediana para vencedora, é por si uma ingenuidade infantil característica dos latinos em geral e dos portugueses em particular. Repare-se como é um exercício bem mais difícil fulanizar a selecção alemã através de uma só individualidade, tendo em consideração a alta preparação física, abundante qualidade técnica e inteligência táctica que fazem dela uma equipa absolutamente excepcional. Repara-se na ironia, ou enganador desliquilibrio, que reflectem os media ao personificarem o duelo da final de amanhã nas figuras de Müller e… Messi.
Talvez não seja abusivo extrapolar esta característica messiânica para outros planos da mentalidade portuguesa, como a excessiva valorização das lideranças de empresas e instituições, que são comummente mimoseadas com ordenados absolutamente desproporcionais à mais-valia que podem significar. Ou do fulanismo que representa o exagero de expectativas que os actores e comentadores políticos nacionais depositam nas decisões e opiniões de um só homem - cujo juízo só por natureza é limitado e imperfeito - o presidente da república, a quem ironicamente, “apenas” lhe sobeja o poder de dissolução do parlamento, um órgão colegial legitimamente eleito que reúne em confronto uma elite de representantes das diferentes facções nacionais, órgão que pela sua natureza plural tende à permanente autofiscalização e autocrítica.
Seja qual for o resultado do Mundial que termina logo mais no Maracanã, podemos ter já a certeza de que os louros duma vitória jamais dependeriam de um Neymar, um Ronaldo, ou um Messi (qua amanhã vai estar devidamente vigiado), por mais que a natureza humana reclame por ídolos. Não tenho a mais pequena dúvida de como a influência de um só indivíduo, uno e irrepetível, pode sempre fazer muita diferença, para o bem e para o mal, numa comunidade e na História de um povo. Mas a esta certeza junto a de que, quando uma comunidade tem depositada sobre um só indivíduo excessivas expectativas, o mais das vezes isso significa a sua demissão do papel que cabe a si e cada um na transformação dessa realidade, e é o reflexo de uma profunda infantilidade civilizacional, que faz prever os mais desastrosos resultados.

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