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João Távora

Não sabemos o que será da França

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Ontem, os britânicos, mergulhados numa crise económica e social profunda, despacharam o partido conservador depois de 14 anos de governo e trágicas asneiras dando uma maioria assinalável aos trabalhistas para governar os seus destinos. Claro que eles, para obterem esta conquista esmagadora de círculos eleitorais, trataram primeiro de correr com os radicais e elegeram uma liderança moderada, beneficiando de uma quebra de mais de 20% dos votos dos conservadores e do sistema eleitoral. 

Já em França o futuro é algo difícil de prever, que os franceses há muito cuidaram de cortar a cabeça ao rei. Mas há um padrão que se adivinha inevitável: depois das eleições no domingo, nas principais cidades do país, haverá muitas montras destruídas, automóveis queimados e pedras a voar. Tudo aponta para a vitória do Reagrupamento Nacional de Marine Le Pen e da jovem promessa Jordan Badella, porventura sem maioria absoluta, para enfrentar uma “barragem republicana” liderada pelo partido de Macron que não teve pudor de nela incluir a esquerda radical com propostas tão ou mais radicais quanto a extrema-direita. Tudo isto seria grave se não fosse trágico, se considerarmos a panela de pressão que é a França nos nossos dias, com as finanças descontroladas e reivindicações dos extremos impossíveis de satisfazer.

Talvez os irredutíveis franceses estejam habituados a este ambiente caótico e um milagre à beira do precipício adie o descalabro, que rapidamente se estenderia à União Europeia. Incapazes de encontrar pontes e consensos, os franceses há muito tempo dessacralizaram o poder e os seus símbolos, e vão malbaratando “repúblicas” à procura duma receita que apazigue o seu frémito fracturante, quem sabe herdado da Revolução. Foram demasiadas cabeças cortadas. Como dizia um “macronista” parisiense citado no Observador, “Ao início, um Presidente é sempre muito popular. Depois perde essa popularidade. Foi assim com Sarkozy, com Hollande, agora com Macron. Temos sempre este impulso de querer cortar a cabeça ao Rei.” A questão dos franceses há muito que não é política ou ideológica. Trata-se duma insatisfação existencial, espiritual.

Espero que Portugal, que deve muito da sua cultura política a esta França revoltada e histriónica, ganhe logo à noite a eliminatória aos Galos. É que o futebol tapa muita coisa, e nós por cá também temos as nossas questões irresolúveis.