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João Távora

O Amor é que nos salva

 

Magnified, sanctified, be Thy holy name
Vilified, crucified, in the human frame
A million candles burning for the help that never came
You want it darker
Hineni, Hineni
I'm ready, my Lord

 

Passados os cinquenta a morte passa a fazer parte do nosso dia a dia como Espada de Dâmocles, quase nos habituamos à surpresa de ver partir os muitos que amamos e outros que, sem uma relação pessoal mas sendo uma referência, simpesmente nos habituaram a uma reconfortante coexistência. Na música popular há nesta década uma extraordinária e irrepetivel geração que atinge uma idade perigosa e nesse sentido 2016 tem sido um ano muito fonesto. É o caso do poeta, músico e escritor Leonard Cohen que agora nos deixou.
A verdade é que nos meus tempos de Liceu não adivinharia o reconhecimento que o cantor obteve na hora da sua morte, em grande destaque nos noticiários de prime time dos canais generalistas. Lembro-me de descobrir Leonard Cohen ainda miúdo escutando em casa com a minha irmã as suas canções para “gente grande”. Elas eram um desafio para o meu limitado entendimento do inglês, onde se intuía uma densidade que nunca parei de desvendar, ou apenas trautear a arranhar numa guitarra emprestada. Fascinavam-me na sua música aquelas geniais harmonias e a sua voz sombria contrastando com um coro de cristalinas vozes femininas. É dessa primeira fase, até a Death of a Ladies' Man, a que mais gosto desvendada pelos discos Songs of Leonard Cohen e depois com Songs of Love and Hate discos que ainda hoje guardo muito gastos pelo uso e que a malta da escola achava monótonos e deprimentes. É um lugar comum afirmar que Songs of Love and Hate é um portentoso hino à melancolia, à solidão. Definitivamente não se seduzia uma miúda gira com Leonard Cohen - ou talvez o problema fosse mesmo meu. Depois, pelo que leio por aí descubro que sou dos poucos que gostam  Death of a Ladies' Man que a produção de Phil Spector transfigura numa estranha coloração psicadélica como que plastificada, mas bela. Gosto muito da voz Leonard Cohen abafada atrás da "cortina de som", do desprendimento de  "True Love Leaves No Traces", da elegante devassidão em "Paper Thin Hotel" e  "Death of a Ladies' Man". Foi mais tarde o visionário álbum The Future que resgatou a minha paixão então mais adulta pela sua música e palavras que fascinam ou nos inquietam até hoje. 
Curioso como Leonard Cohen confessa à beira da morte em You Want It Darker publicado há dias que, mesmo no desespero do Seu silêncio, se encontra pronto para o encontro com o Senhor. Será certamente uma figura de retórica de quem passou uma vida a desafiá-Lo e a procurá-Lo. Eu pela minha parte que sou teimoso quero crer que o Nosso Senhor o tenha já recebido em Sua infinita Glória. Leonard Cohen o trovador aristocrata que veio da neve, aquele generoso homem elegante, culto e educado que tirava o chapéu depois de cantar para nos agradecer as palmas, a nossa devoção. De resto, concordamos no essencial: “Love's the only engine of survival”.

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