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João Távora

O que eu passei para aqui chegar...

“Somos uns seres no gerúndio, não somos fixos, estamos sempre a fazer-nos… Ao contrário das cobras, que se vão separando de cada pele, nós sobrepomos as peles, e portanto entesouramos a realidade que vamos sendo.”
Ortega y Gasset
 
A minha filha disse-me certo dia, quando era pequenina, que queria ser uma “celebridade” – a palavra requer aspas pois a sua conotação hoje em dia liga-se à “fama” mediática. Um desejo que na altura já se revelava um pouco contraditório com o seu feitio algo tímido e cortês. Ainda hoje acredito como é importante uma pitada insegurança para temperar um bom carácter. Tentei explicar-lhe como melhor ainda que ser “famosa” é ser “importante”, como é o caso de uma médica que salva as pessoas da doença, de um professor que desperta os alunos para o saber e para a liberdade de pensarem por si, ou de uma mãe de família com o poder de incutir bons valores e força de vontade nos seus filhos.
Certo é que queremos sempre nos extravasar das margens do que somos, desafiar o que a nossa natureza nos dificulta. Por exemplo, eu admiro profundamente a capacidade de um bom tribuno, culto, de pensamento rápido e discurso arguto. Nunca lá chegarei perto, mas o certo é que nos vamos transformando (sim, estamos sempre a recriarmo-nos), e que o que somos é um milagre de que não temos consciência, fruto de um vagaroso itinerário interior feito vontade, tão lento como o ponteiro das horas que parece estar sempre parado.