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João Távora

Rua da Saudade (parte ii)

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Há poucos meses, numa inauguração no Museu dos Coches, fui interpelado no elevador pelo R. que, depois de confirmar a minha identidade, simpaticamente se apresentou e me informou que era possuidor de um retrato meu pintado por Agath V. Radey. Foi quando uma cascata de sentimentos e memórias se desprendeu do meu arquivo de histórias – lembrei-me daquele sótão de pintura da Tia Ágata e do quadro que cheguei a ver rascunhado pelo traço do carvão. Soube então do tributo que a família está a preparar por ocasião do seu centenário natalício no mês de Outubro. Soube como Agath V. Radey ainda chegou a ser homenageada no final dos anos 80, uns anos depois da sua morte, com uma exposição organizada pela Câmara de Cascais de algumas das suas mais significativas obras no Museu Conde de Castro Guimarães. Do seu amor a Cascais e às gentes simples com quem se cruzava, a uma vida a que se entregou com o desprendimento que só uma princesa sabe ter, como se fora serviço. Lembrei-me outra vez do seu olhar azul, cansado, com que me velava à mesa de jantar – a Tia Ágata obedecia a uma estranha regra de não jantar – da sua esmerada gelatina recheada de frutas frescas. Lembrei-me de como se movia ágil, com passo estugado, pelas ruas da Vila que adoptou, pela qual foi adoptada e onde morreu em 1983. Lembrei-me como guiava expedita o seu Morris Mini como se fora um Kart, que circulava ruidoso entre os barcos e as redes dos pescadores, ou de como os caminhos da vida são tão sinuosos quanto imprevisíveis, e podem confluir numa rua chamada Saudade. E de como um Verão mágico como aquele não ficou só esculpido na minha saudade, mas afinal está testemunhado em cores vivas numa tela, prova materializada, visível, palpável, dum tempo em que, como criança que pôde ser criança, tive tempo de ser feliz.

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