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João Távora

Sebastião

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Tinha aprendido a amar de uma forma plausível e há muito reconhecia os limites duma efabulada felicidade que a obstinada fantasia infantil o induzira a acreditar até tarde de mais. Chegado perto dos 50 anos Sebastião tinha a existência relativamente pacificada. Relativamente porque sobejavam aqueles tortuosos minutos (ou seriam apenas segundos?), que o inquietavam naquele twilight do despertar madrugador, em que de forma violenta do profundo sono em queda livre esbarrava numa realidade vazia, sem os filtros culturais, os fetiches da consciência de si e o sentido de pertença, as certezas construídas em camadas mais ou menos firmes. Naquele ponto da madrugada morna e inconsciente abruptamente entrecortada para mais outro dia de trabalhos e contendas, por uns segundos, (talvez fossem minutos), o mundo apresentava-se-lhe assim como se fora desalmado, ósseo, feito de seres vazios, expurgados de afecto. Esses momentos de sinistra lucidez, eram afinal instrumento de reconhecida eficácia para, ainda antes de se levantar para enfrentar a jornada, friamente esclarecer sentimentos e arbitrar indecisões ou conflitos, destroços do dia anterior, quase sempre de âmbito profissional - a crueza daquela racionalidade mórbida ajudava-o a corrigir juízos e a tomar decisões. Mas o certo é que esse buraco negro se esvaía com relativa rapidez, engolido com o pequeno-almoço e definitivamente digerido pelo urgente e escaldado café da manhã. Sebastião, homem bem-aventurado, plenamente realizado e vivido, tinha naquela sua secreta vertigem, naquela visão do abismo, a consciência próxima da morte, antes de o ser. De que a vida era uma preciosa conquista diária ao nevoeiro, à obscuridade.  

 

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