Há histórias que, ao longo dos anos, se entrelaçam nos cantos da memória colectiva, até que já não sabemos bem onde começa uma e acaba a outra. Tal é o caso de “Pedro e o Lobo”, obra musical composta por Serguei Prokofiev em 1936, e da fábula ancestral “O Pastor Mentiroso e o Lobo”, frequentemente atribuída a Esopo, escritor da Grécia Antiga conhecido pelas suas fábulas. (...)
A reflexão que aqui partilho tem origem nos comentários de uma miúda teenager, neta (!) de uns amigos meus, que recentemente num jantar em casa dos seus avós me confidenciou gostar muito do programa “Irritações” da SIC Radical. Confesso que fiquei estupefacto: no meio de tantas Apps, TikToks, Reels e quejandos que fazem qualquer adulto sentir-se analfabeto digital, eis que uma jovem opta por ficar em casa a ver um programa de televisão — e logo um “Seated standup talk (...)
Tempos houve que, perante uma tragédia, perante um cataclismo, um funesto mau ano agrícola, ou infausta epidemia, a comunidade enchia as igrejas, recorria aos santos que nos andores saíam em procissão, suplicando-lhes o povo a intercessão ao Criador por uma redentora intervenção - eram uns totós. Chegados à laica modernidade, esvaziadas as igrejas e secularizado o espaço público, o fenómeno permanece com outras roupagens – só pode ser o sentido de humor de Deus: o (...)
Naquele tempo, comentavam alguns que o Templo estava ornado com belas pedras e piedosas ofertas. Jesus disse-lhes: «Dias virão em que, de tudo o que estais a ver, não ficará pedra sobre pedra: tudo será destruído». Lucas 21, 5 Agarramo-nos à iconografia do nosso tempo como se fetiches se tratassem. Pretendemos que o nosso tempo se deixe tomar para nós, como se fossemos suficientemente importantes. Chega a ser comovente como nos empenhamos a preservar as obras que nos foram (...)
A saudosa Helena Vaz da Silva disse certa vez, quando alguém lhe perguntava qual a época do ano sua preferida, que gostava sempre daquela que estava a viver – por regra em alta intensidade. Sou capaz de aderir a essa ideia, reconheço que todas as estações e meses, com as suas nuances, têm o seu especial encanto, que depende principalmente do nosso olhar. No entanto, certamente por razões pouco originais, tenho uma especial simpatia pelo mês de Agosto. Em primeiro lugar, porque (...)
Há poucas coisas mais difíceis hoje em dia na minha casa que ver em família uma série de televisão em streaming. Acontece que há sempre alguém à hora combinada que não pode estar presente na sala por causa de programas inadiáveis, sempre interessantíssimos, que justificam o resto da comunidade ficar solidariamente em suspenso à espera duma oportunidade consensual. Acontece que os episódios estarão lá indefinidamente ocultos, mas disponíveis, toda a gente sabe; por isso (...)
Enquanto o mundo inteiro andava entretido com prioridades inadiáveis e assuntos de suma-importância, na terça-feira passada quando enviava um orçamento a um cliente, o meu fiel computador portátil já com doze anos de trabalho em cima e algumas letras do teclado desvanecidas, entregava a motherboardao criador. E eu a pensar que tinha uma vida difícil... privado da minha enxada, vi-me subitamente numa grande aflição - que foi como se me tivessem cortado os dois braços. Claro está (...)
No início achava que demasiados artistas sobrevalorizavam a importância da dança e entretinha-me com boas canções e poemas desafiantes. Rapazes e raparigas que mal se conheciam a dançarem freneticamente melodias simples com ritmos fortes? Não percebia o interesse. Chegado à adolescência, rapidamente fui convertido a esses rituais rebeldes, tantas vezes mal aceites pelos adultos: de tarde ou de noite, e quantas vezes até de madrugada, dancei até próximo da loucura, em festas (...)
“É curioso, mas não posso ler um anúncio de qualquer medicamento sem concluir que sofro precisamente da doença em questão e logo na sua forma mais perigosa”. J.K. Jerome in Três Homens num Bote O desconcertante suicídio dum comediante no pico das férias de Verão, época tão propensa a superficialidades, trouxe para as redes sociais o sedutor tema da (...)
Casamento - Foto Instagram minha Sobre o Amor romântico sei dizer pouco: ao fim de quase 50 anos de leituras, os testemunhos dos poetas deixam-me sem palavras. Sobre o casamento acho que já sei alguma coisa. Que ninguém está tão pouco casado quanto um par de noivos à saída da Igreja - falta ainda tudo. Que é construção, é civilização, e por isso não é (...)