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João Távora

Trash pack, ou chafurdar no lixo

Acompanhar as novidades tecnológicas, modas e mentalidades, é pela vida fora, um duro desafio que os nossos filhos não nos poupam, instigando-nos, extremosos paizinhos, a nos manter atentos e desinstalados. Ora acontece que a mais recente moda que seduz a pequenada é para mim absolutamente espantosa: falo-vos dos Trash packs, uma interminável colecção de pequenos bonecos de borracha gelatinosa, representando toda a sorte de imundícies, dejectos e bichezas que vivem num caixote de lixo. Com olhos e boca, estas assombrosas figuras com cerca de dois centímetros são vendidos aos pares dentro de minúsculos caixotes de lixo de plástico “surpresa” que custam quase cinco euros cada. Ao que julgo perceber a moda pegou fanática em alguns meios e países, para tal contribuindo as centenas de variedades Trashies que se organizam em diferentes “gangs”, como o de comida podre, insectos, embalagens etc., disponibilizando o fabricante “edições limitadas” sendo a mais rara uma espécie que brilha no escuro. Numa consulta de internet, ficamos a saber que “a série” está difundida em jogos electrónicos, desenhos animados, cromos coleccionáveis e banda desenhada.
Na sequência da revolução juvenil “Sexo, Drogas e Rock n’ roll” encetada pela minha geração, já nos tínhamos apercebido que poucas barreiras estéticas seriam poupadas pela adolescentocracia instaurada. É assim que temos que aceitar com naturalidade que enquanto a generalidade desses que são hoje paizinhos se habituaram a consumir com gáudio tanto horror e vulgaridade, os seus filhos sejam atraídos pelo fascinante microcosmos que é um contendor de lixo orgânico. Porque não?