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João Távora

Uma sustentável leveza de ser

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A reflexão que aqui partilho tem origem nos comentários de uma miúda teenager, neta (!) de uns amigos meus, que recentemente num jantar em casa dos seus avós me confidenciou gostar muito do programa “Irritações” da SIC Radical. Confesso que fiquei estupefacto: no meio de tantas Apps, TikToks, Reels e quejandos que fazem qualquer adulto sentir-se analfabeto digital, eis que uma jovem opta por ficar em casa a ver um programa de televisão — e logo um “Seated standup talk show” (que foi a melhor designação que encontrei) protagonizado por cotas pouco mais novos que eu. Em vez de sair para dançar, beber refrigerantes a mais (ou o que quer que os jovens bebam agora) e dar umas voltas com os amigos, a determinada altura ela escolheu sofá e televisão. O nome do canal não engana — SIC Radical parece coisa para quem escala paredes ou salta de aviões — talvez por isso alguns jovens ali encontram o seu refúgio.

A questão ficou a marinar-me na cabeça até que, algum tempo depois, num daqueles zappings distraídos (que é como se estivéssemos à procura de algo que inadvertidamente nos surpreenda), parei ao ver o tal programa. Lá estava eu, anos depois de assistir a um episódio em que o meu amigo Duarte Calvão foi estrela convidada, a dar por mim sentado de comando na mão, rendido.

Farto como ando de ver canais de notícias cada vez mais infrequentáveis — aqueles onde qualquer parecença com saber e serenidade é pura coincidência —, já não me custa nada trocar uma meia hora de berros e discussões por uns momentos de conversa fiada. Ainda estou para perceber porque é que prefiro isto a avançar na pilha interminável de livros em espera, mas adiante. Nos tempos que correm, canais de “conversa” são uma boa escapatória para as pessoas entediadas, e há-os sobre quase tudo: futebol, política, sociedade ou apenas sobre nada — que, no fundo, é do que trata o Irritações. Trata-se de um programa lançado em 2011, com Pedro Boucherie Mendes ao leme, frequentemente acompanhado por Luís Pedro Nunes, José de Pina, Carla Quevedo e da Luana do Bem (raio de nome). Cada um traz do seu pequeno universo as suas queixas e casos, e juntos conseguem a proeza rara de não irritar ninguém — o que, para um programa chamado “Irritações”, não deixa de ter a sua piada. Entre debates sobre o irritante no futebol e política, cheios de gritaria e egos em combustão, o Irritações é como um chá de camomila televisivo. Ali, não se abordam temas fracturantes que fazem cair ou crescer cabelos brancos, nem questões capazes de azedar o merecido descanso dum guerreiro, cansado das agruras do dia. Os casos são medianamente interessantes, as piadas suaves e inócuas e, às vezes, até nos arrancam um sorriso. É, no fundo, como nos encontros de amigos sensatos em dias do trabalho, sem disposição para grandes euforias, mas em que ainda sobra energia para reclamar de pequenas coisas — com graça, claro.

Desconfio, porque acredito que o mundo não está totalmente perdido, que a jovem, simpaticamente encontrou naquele tema do “Irritações” uma gentil forma de fazer conversa com um “tio” sexagenário que trabalha em comunicação. E que depois daquele jantar foi ter com os amigos para “a noite”. De facto, desapareceu pela altura dos digestivos.

De resto, um programa com 15 anos terá certamente as suas qualidades. Desde logo, conseguir não me irritar. Afinal, temos que aproveitar os tempos modernos, e às vezes deixar entrar na nossa sala um conjunto de “especialistas” em conversa fiada, companhia gratuita ao toque de um botão. Outra coisa: lembremo-nos do versículo de Mateus, no relato do Sermão da Montanha: “Não julgueis, para que não sejais julgados.”